{"id":17327,"date":"2025-10-17T03:07:01","date_gmt":"2025-10-17T06:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/17\/puffing-fronteira-entre-mero-exagero-comercial-e-publicidade-enganosa\/"},"modified":"2025-10-17T03:07:01","modified_gmt":"2025-10-17T06:07:01","slug":"puffing-fronteira-entre-mero-exagero-comercial-e-publicidade-enganosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/17\/puffing-fronteira-entre-mero-exagero-comercial-e-publicidade-enganosa\/","title":{"rendered":"Puffing: fronteira entre mero exagero comercial e publicidade enganosa"},"content":{"rendered":"<p>A publicidade sempre se valeu de recursos de linguagem para despertar no consumidor emo\u00e7\u00f5es e expectativas positivas em rela\u00e7\u00e3o a produtos e servi\u00e7os. Nesse contexto, \u00e9 comum encontrarmos propagandas de produtos ou servi\u00e7os com <em>slogans<\/em> como \u201co melhor do mundo\u201d, \u201cn\u00famero 1 em vendas\u201d, \u201co mais gostoso\u201d etc.<\/p>\n<p>A d\u00favida que surge \u00e9: at\u00e9 que ponto essas express\u00f5es configuram apenas exagero publicit\u00e1rio, pr\u00e1tica aceita e at\u00e9 esperada no mercado, e em que momento passam a caracterizar propaganda enganosa, vedada pelo ordenamento jur\u00eddico? Esse \u00e9 o campo do chamado <em>puffing<\/em>, conceito que a jurisprud\u00eancia brasileira vem tratando em decis\u00f5es judiciais, mas que ainda apresenta nuances e tens\u00f5es relevantes.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O <em>puffing<\/em> \u00e9 entendido como a pr\u00e1tica de autopromo\u00e7\u00e3o exagerada, em que o anunciante utiliza express\u00f5es superlativas ou subjetivas para valorizar seu produto ou servi\u00e7o, sem que tais afirma\u00e7\u00f5es possam ser objetivamente verificadas.<\/p>\n<p>Trata-se, por exemplo, de dizer que determinado estabelecimento \u00e9 \u201cimbat\u00edvel\u201d ou que certo produto \u00e9 \u201co mais gostoso\u201d. O ponto central \u00e9 que o consumidor m\u00e9dio n\u00e3o toma essas express\u00f5es de forma literal, mas as entende como meros recursos ret\u00f3ricos. Por isso, o ordenamento jur\u00eddico brasileiro admite o <em>puffing<\/em> como pr\u00e1tica leg\u00edtima, desde que n\u00e3o envolva falsidade objetiva que induza o consumidor a erro.<\/p>\n<p>Os tribunais brasileiros j\u00e1 enfrentaram casos em que se discutiu se uma estrat\u00e9gia publicit\u00e1ria seria mero <em>puffing<\/em>, ou se efetivamente teria o cond\u00e3o de enganar consumidores quando \u00e0s caracter\u00edsticas e qualidade de um produto ou servi\u00e7o, e tais precedentes ser\u00e3o explorados adiante.<\/p>\n<p>O Superior Tribunal de Justi\u00e7a (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/STJ\">STJ<\/a>) j\u00e1 enfrentou diretamente o tema em mais de uma ocasi\u00e3o. No caso Unilever vs. Heinz (REsp 1.759.745\/SP), a 4\u00aa Turma considerou l\u00edcitas as express\u00f5es \u201cHeinz, o ketchup mais consumido do mundo\u201d e \u201cHeinz, melhor em tudo que faz\u201d. O STJ destacou que o primeiro argumento estava amparado em dados de mercado, enquanto o segundo se tratava de autoelogio subjetivo, caracterizando <em>puffing<\/em>.<\/p>\n<p>O relator, Ministro Marco Buzzi, observou que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel infantilizar o consumidor m\u00e9dio brasileiro, presumindo que ele tomaria ao p\u00e9 da letra express\u00f5es evidentemente promocionais.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/t.me\/jotanotelegram\">Inscreva-se no canal do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> no Telegram e acompanhe as principais not\u00edcias, artigos e an\u00e1lises!<\/a><\/h3>\n<p>Em outro precedente, o caso Whirlpool vs. Springer (REsp 1.370.677\/SP), discutia-se a propaganda de ar-condicionado alegadamente \u201csilencioso\u201d. Ainda que per\u00edcia tivesse constatado que o aparelho n\u00e3o era totalmente silencioso, o STJ entendeu que a express\u00e3o deveria ser relativizada como recurso de <em>puffing<\/em>, afastando inclusive a condena\u00e7\u00e3o por danos morais coletivos.<\/p>\n<p>Em linha semelhante, no lit\u00edgio entre Burger King e Madero (REsp 1.866.232\/SP), por mais que n\u00e3o se tenha falado expressamente em <em>puffing<\/em>, a Corte afastou a obriga\u00e7\u00e3o do Madero de comprovar que produzia \u201co melhor hamb\u00farguer do mundo\u201d, reconhecendo essa afirma\u00e7\u00e3o como exagero publicit\u00e1rio aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Apesar da tend\u00eancia mais permissiva do STJ, uma decis\u00e3o recente do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo trouxe um contraponto relevante. No julgamento da Apela\u00e7\u00e3o n\u00ba 1083308-68.2024.8.26.0100, discutia-se o <em>slogan<\/em> \u201co melhor restaurante do Brasil\u201d. Nesse caso, a 1\u00aa C\u00e2mara Reservada de Direito Empresarial do TJSP entendeu que n\u00e3o se tratava de mero <em>puffing<\/em>, mas de uma afirma\u00e7\u00e3o de superioridade objetiva e afer\u00edvel, cuja legitimidade exigia comprova\u00e7\u00e3o robusta.<\/p>\n<p>Para o Tribunal, ao contr\u00e1rio de adjetivos como \u201cimbat\u00edvel\u201d ou \u201cinsubstitu\u00edvel\u201d, a express\u00e3o \u201co melhor restaurante do Brasil\u201d sugere lideran\u00e7a concreta em rela\u00e7\u00e3o a todos os demais estabelecimentos do Pa\u00eds, e, portanto, n\u00e3o poderia ser usada sem respaldo em dados verific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Esse julgado \u00e9 relevante porque delineia com clareza a diferen\u00e7a entre <em>puffing<\/em> e propaganda enganosa, mas ao mesmo tempo introduz certa tens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do STJ. Afinal, pode-se argumentar que <em>slogans<\/em> como \u201co melhor restaurante do Brasil\u201d tamb\u00e9m poderiam ser enquadrados como hip\u00e9rboles t\u00edpicas da linguagem publicit\u00e1ria, incapazes de convencer objetivamente o consumidor m\u00e9dio.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O resultado \u00e9 que, embora a jurisprud\u00eancia do STJ sinalize maior flexibilidade, essa decis\u00e3o do TJSP indica uma postura mais rigorosa, sobretudo quando a alega\u00e7\u00e3o sugere lideran\u00e7a mensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Da an\u00e1lise do conjunto de precedentes, surgem alguns crit\u00e9rios \u00fateis para diferenciar <em>puffing<\/em> de propaganda enganosa.<\/p>\n<p>Quando a express\u00e3o \u00e9 nitidamente subjetiva e fantasiosa, como \u201co mais saboroso\u201d ou \u201cimbat\u00edvel\u201d, tende a ser reconhecida a pr\u00e1tica de <em>puffing<\/em>, l\u00edcita. Por outro lado, quando se afirma uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a absoluta em determinado mercado ou territ\u00f3rio, como em \u201co melhor restaurante do Brasil\u201d ou \u201c<em>o <\/em>mais vendido do Pa\u00eds\u201d, a mensagem pode deixar de ser mera hip\u00e9rbole e passaria a exigir comprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O contexto tamb\u00e9m importa; se a publicidade menciona rankings ou premia\u00e7\u00f5es, \u00e9 maior a expectativa de que a superioridade proclamada tenha respaldo verific\u00e1vel e, consequentemente, a exig\u00eancia de comprova\u00e7\u00e3o se intensifica.<\/p>\n<p>O <em>puffing<\/em> \u00e9, em ess\u00eancia, uma licen\u00e7a criativa do marketing, e a jurisprud\u00eancia do STJ tem mostrado compreens\u00e3o quanto a isso. Entretanto, a decis\u00e3o do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo (TJSP) envolvendo a express\u00e3o \u201cmelhor restaurante do Brasil\u201d lembra que a linha divis\u00f3ria entre exagero tolerado e publicidade enganosa n\u00e3o \u00e9 fixa: ela se desloca conforme o tipo de argumenta\u00e7\u00e3o, o contexto e a forma como o consumidor m\u00e9dio pode interpretar a mensagem.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o que fica \u00e9: <em>slogans<\/em> baseados em autoelogios subjetivos permanecem em zona segura, enquanto afirma\u00e7\u00f5es que soam como comprova\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a objetiva devem ser usadas com maior cautela, de prefer\u00eancia acompanhadas de dados s\u00f3lidos e objetivos. Do contr\u00e1rio, o que parecia apenas uma jogada de marketing pode se transformar em disputa judicial.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A publicidade sempre se valeu de recursos de linguagem para despertar no consumidor emo\u00e7\u00f5es e expectativas positivas em rela\u00e7\u00e3o a produtos e servi\u00e7os. 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