{"id":16130,"date":"2025-10-07T06:00:30","date_gmt":"2025-10-07T09:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/07\/ia-generativa-no-sistema-de-justica-promessas-dilemas-e-caminhos-regulatorios\/"},"modified":"2025-10-07T06:00:30","modified_gmt":"2025-10-07T09:00:30","slug":"ia-generativa-no-sistema-de-justica-promessas-dilemas-e-caminhos-regulatorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/07\/ia-generativa-no-sistema-de-justica-promessas-dilemas-e-caminhos-regulatorios\/","title":{"rendered":"IA generativa no sistema de justi\u00e7a: promessas, dilemas e caminhos regulat\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<p>A <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/inteligencia-artificial\">intelig\u00eancia artificial<\/a> deixou de ser promessa distante para se tornar parte concreta do cotidiano jur\u00eddico brasileiro. A mais recente pesquisa do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/cnj\">CNJ<\/a>) mostra que quase metade dos tribunais j\u00e1 utiliza ferramentas de IA generativa em suas opera\u00e7\u00f5es (45,8%), sobretudo em tarefas textuais como gera\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de documentos, sumariza\u00e7\u00e3o e apoio na reda\u00e7\u00e3o (CONSELHO NACIONAL DE JUSTI\u00c7A, 2025, p. 24-25).<\/p>\n<p>O dado \u00e9 significativo: revela n\u00e3o apenas a incorpora\u00e7\u00e3o de uma tecnologia emergente em um ambiente marcado pela formalidade e pelo rigor procedimental, mas tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o de que a efici\u00eancia processual e a redu\u00e7\u00e3o da sobrecarga de trabalho n\u00e3o podem prescindir da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Entre os tribunais que ainda n\u00e3o adotaram essas ferramentas, mais de 80% declararam inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-lo, sinalizando que a tend\u00eancia se tornar\u00e1, em breve, maioria (CONSELHO NACIONAL DE JUSTI\u00c7A, 2025, p. 25). Al\u00e9m disso, levantamento tamb\u00e9m recente da OAB-SP, Trybe, Jusbrasil e ITS Rio revela que 55,1% dos profissionais de Direito aplicam IA generativa em suas atividades di\u00e1rias, majoritariamente em an\u00e1lise de documentos, produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as jur\u00eddicas e pesquisas jurisprudenciais e doutrin\u00e1rias, com varia\u00e7\u00e3o conforme perfil (aut\u00f4nomos, escrit\u00f3rios privados ou setor p\u00fablico) (OAB-SP et al., 2025).<\/p>\n<p>Esse movimento ocorre em um contexto de alta judicializa\u00e7\u00e3o, no qual milh\u00f5es de processos sobrecarregam tribunais e profissionais do Direito diante de demandas cada vez mais complexas. E n\u00e3o apenas os processos em curso entram nessa conta. Como j\u00e1 apontavam Cappelletti e Garth (1988, p. 4), o acesso efetivo \u00e0 justi\u00e7a \u00e9 \u201co requisito fundamental \u2014 o mais b\u00e1sico dos direitos humanos\u201d (especialmente porque garante o acesso a todos os outros direitos), mas sua realiza\u00e7\u00e3o frequentemente \u00e9 limitada por custos de tempo e energia que inviabilizam a efetividade da tutela.<\/p>\n<p>O mero risco do processo \u00e9 suficiente para iniciar trabalhos relacionados de consultoria e <em>due diligence<\/em> que s\u00e3o igualmente relevantes, complexos e demorados em seu desenvolvimento. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que a IA assume fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: liberar operadores do Direito de tarefas repetitivas, permitir an\u00e1lise em grande escala de dados jur\u00eddicos, apoiar decis\u00f5es que exigem consist\u00eancia e agilidade e tornar mais palp\u00e1vel e compreens\u00edvel o conte\u00fado jur\u00eddico para pessoas leigas.<\/p>\n<p>Embora o horizonte de desenvolvimento de produtos com IA seja ainda mais promissor, solu\u00e7\u00f5es especializadas j\u00e1 demonstram o potencial de integra\u00e7\u00e3o entre bases jur\u00eddicas oficiais e modelos de linguagem, permitindo que advogados conduzam pesquisas mais r\u00e1pidas, elaborem pe\u00e7as com maior rigor e ampliem o alcance de sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as iniciativas que n\u00e3o pretendem substituir o racioc\u00ednio jur\u00eddico, mas criar condi\u00e7\u00f5es para que a advocacia seja mais anal\u00edtica e estrat\u00e9gica, tendem a ser cada vez mais bem-sucedidas (ainda que se deva evitar, como alerta parte da cr\u00edtica a Susskind (2019), um otimismo excessivamente tecnodeterminista).<\/p>\n<p>Esse avan\u00e7o, ainda assim, traz consigo dilemas. A pr\u00f3pria pesquisa do CNJ indica que mais da metade dos \u00f3rg\u00e3os que usam IA generativa o fazem por meio de contas pessoais, sem coordena\u00e7\u00e3o institucional ou diretrizes claras (CONSELHO NACIONAL DE JUSTI\u00c7A, 2025, p. 26-27). O mesmo pode ser suposto sobre advogados em escrit\u00f3rios e departamentos jur\u00eddicos, onde muitas vezes a ado\u00e7\u00e3o ocorre de forma difusa e individualizada.<\/p>\n<p>Isso levanta preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e jur\u00eddicas centrais: a privacidade dos dados judiciais, o risco de vieses algor\u00edtmicos e a aus\u00eancia de pol\u00edticas internas consolidadas. Mittelstadt et al. (2016) j\u00e1 advertiam que a \u00e9tica dos algoritmos n\u00e3o pode se restringir \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de riscos abstratos, mas exige mecanismos pr\u00e1ticos de governan\u00e7a capazes de reduzir lacunas entre design e uso.<\/p>\n<p>Ainda que o Marco Legal da IA em discuss\u00e3o no Brasil (PL 2338\/2023) e normas recentes do pr\u00f3prio CNJ (Resolu\u00e7\u00e3o CNJ 615\/2025 e Ato Normativo 0000563-47.2025.2.00.0000, que atualiza a Resolu\u00e7\u00e3o 332\/2020) estabele\u00e7am balizas para uso respons\u00e1vel, a dist\u00e2ncia entre discurso normativo e pr\u00e1tica cotidiana continua sendo um dos grandes desafios para a consolida\u00e7\u00e3o segura da tecnologia.<\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o \u2014 entre a necessidade de inova\u00e7\u00e3o e a urg\u00eancia de salvaguardas \u00e9ticas \u2014 talvez seja o tra\u00e7o mais caracter\u00edstico do momento atual. Se de um lado a IA oferece ganhos de efici\u00eancia, democratiza o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e amplia a transpar\u00eancia; de outro, imp\u00f5e a advogados e magistrados a tarefa de desenvolver novas compet\u00eancias.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O profissional do Direito que atua nesse cen\u00e1rio precisa dominar ferramentas digitais, interpretar criticamente resultados de algoritmos e cultivar uma \u00e9tica digital que complemente sua forma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica tradicional. Floridi e Cowls (2019) defendem princ\u00edpios como benefic\u00eancia, justi\u00e7a e explicabilidade, mas parte da literatura alerta para o risco de que tais diretrizes permane\u00e7am em n\u00edvel ret\u00f3rico (<em>ethics washing<\/em>) se n\u00e3o forem acompanhadas de processos audit\u00e1veis, m\u00e9tricas de desempenho e responsabiliza\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial no Direito brasileiro n\u00e3o deve ser vista como mera moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas como transforma\u00e7\u00e3o cultural profunda. O Direito, historicamente ancorado em repeti\u00e7\u00f5es e precedentes, pode se reconfigurar em torno da an\u00e1lise de dados, da predi\u00e7\u00e3o e da personaliza\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es. O futuro da pr\u00e1tica jur\u00eddica no Brasil depender\u00e1 menos da resist\u00eancia \u00e0s mudan\u00e7as e mais da capacidade de advogados, tribunais e institui\u00e7\u00f5es de conduzir essa transi\u00e7\u00e3o com responsabilidade, rigor t\u00e9cnico e consci\u00eancia de seu impacto social.<\/p>\n<p>BRASIL. Conselho Nacional de Justi\u00e7a. <strong>Ato Normativo n\u00ba 0000563-47.2025.2.00.0000<\/strong>. Atualiza a Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 332\/2020, que disp\u00f5e sobre a \u00e9tica, a transpar\u00eancia e a governan\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o e no uso de Intelig\u00eancia Artificial no Poder Judici\u00e1rio. Bras\u00edlia, DF, 18 fev. 2025.<\/p>\n<p>BRASIL. Conselho Nacional de Justi\u00e7a. <strong>Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 615, de 11 de mar\u00e7o de 2025<\/strong>. Institui o Comit\u00ea Nacional de Intelig\u00eancia Artificial do Judici\u00e1rio do Conselho Nacional de Justi\u00e7a. Bras\u00edlia, DF, 11 mar. 2025.<\/p>\n<p>BRASIL. Senado Federal. <strong>Projeto de Lei n\u00ba 2.338, de 2023<\/strong>. Disp\u00f5e sobre o uso da Intelig\u00eancia Artificial. Bras\u00edlia, DF: Senado Federal, 2023.<\/p>\n<p>CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. <strong>Acesso \u00e0 justi\u00e7a<\/strong>. Porto Alegre: Fabris, 1988.<\/p>\n<p>CONSELHO NACIONAL DE JUSTI\u00c7A (CNJ). <strong>Pesquisa Intelig\u00eancia Artificial no Judici\u00e1rio 2024<\/strong>: resumo executivo. Bras\u00edlia, DF: CNJ; PNUD, 2025.<\/p>\n<p>FLORIDI, Luciano; COWLS, Josh. A Unified Framework of Five Principles for AI in Society. <strong>Harvard Data Science Review<\/strong>, v. 1, n. 1, 2019. DOI: 10.1162\/99608f92.8cd550d1.<\/p>\n<p>MITTELSTADT, Brent D. et al. The ethics of algorithms: Mapping the debate. <strong>Big Data &amp; Society<\/strong>, v. 3, n. 2, p. 1-21, 2016. DOI: 10.1177\/2053951716679679.<\/p>\n<p>OAB-SP; Trybe; Jusbrasil; ITS. <strong>Impacto da IA generativa no Direito: Panorama sobre ado\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00f5es<\/strong>. 1o relat\u00f3rio setorial sobre a ado\u00e7\u00e3o e as percep\u00e7\u00f5es da IA Generativa no Direito, mapeando oportunidades e desafios dessa nova realidade. S\u00e3o Paulo: 2025.<\/p>\n<p>SUSSKIND, Richard. <strong>Tomorrow\u2019s Lawyers<\/strong>: An Introduction to Your Future. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2019.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intelig\u00eancia artificial deixou de ser promessa distante para se tornar parte concreta do cotidiano jur\u00eddico brasileiro. A mais recente pesquisa do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) mostra que quase metade dos tribunais j\u00e1 utiliza ferramentas de IA generativa em suas opera\u00e7\u00f5es (45,8%), sobretudo em tarefas textuais como gera\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de documentos, sumariza\u00e7\u00e3o e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16130"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}