{"id":15937,"date":"2025-10-05T05:43:43","date_gmt":"2025-10-05T08:43:43","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/05\/china-em-transformacao-de-fabrica-do-mundo-a-superpotencia-tecnologica\/"},"modified":"2025-10-05T05:43:43","modified_gmt":"2025-10-05T08:43:43","slug":"china-em-transformacao-de-fabrica-do-mundo-a-superpotencia-tecnologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/05\/china-em-transformacao-de-fabrica-do-mundo-a-superpotencia-tecnologica\/","title":{"rendered":"China em transforma\u00e7\u00e3o: de f\u00e1brica do mundo a superpot\u00eancia tecnol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p>O crescimento sustentado, como j\u00e1 demonstravam os cl\u00e1ssicos da economia do desenvolvimento e o modelo de Solow, n\u00e3o decorre apenas do ac\u00famulo de capital f\u00edsico ou humano, mas sobretudo do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, da difus\u00e3o do conhecimento e da efici\u00eancia institucional.<\/p>\n<p>William Easterly, em seu livro cl\u00e1ssico <em>The Elusive Quest for Growth<\/em> (2002), refor\u00e7a que d\u00e9cadas de investimentos em pa\u00edses emergentes fracassaram justamente por negligenciarem o verdadeiro motor do crescimento: a produtividade total dos fatores, ou seja, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e a efici\u00eancia com que capital e trabalho s\u00e3o combinados \u2014 em grande medida dependentes da gera\u00e7\u00e3o, difus\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o se aplica de forma exemplar \u00e0 trajet\u00f3ria chinesa nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, marcada n\u00e3o por atalhos ou milagres, mas por projetos nacionais consistentes, din\u00e2micos e multifacetados, que combinam planejamento estatal, abertura gradual ao mercado, urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada, constru\u00e7\u00e3o massiva de infraestrutura e inser\u00e7\u00e3o competitiva no com\u00e9rcio internacional, sempre com \u00eanfase estrat\u00e9gica em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia como alavancas centrais do desenvolvimento. Mais do que planos quinquenais bem formulados, a diferen\u00e7a crucial da experi\u00eancia chinesa reside na capacidade de implement\u00e1-los de forma efetiva e perene e avali\u00e1-los continuamente.<\/p>\n<p>A velocidade da ascens\u00e3o chinesa impressiona. Em 1978, quando Deng Xiaoping lan\u00e7ou a pol\u00edtica de \u201creforma e abertura\u201d, a China tinha um PIB <em>per capita<\/em> em torno de US$ 200, inferior ao de muitos pa\u00edses africanos de baixa renda. Pouco mais de quatro d\u00e9cadas depois, esse valor multiplicou-se por cerca de 60 vezes. O pa\u00eds se tornou concorrente direta dos EUA na lideran\u00e7a econ\u00f4mica, cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do s\u00e9culo 21, os EUA lideravam 60 das 64 tecnologias-chave contra apenas tr\u00eas em que a China se destacava. Em 2023, o quadro se inverteu, com a lideran\u00e7a chinesa em 57 dessas 64 \u00e1reas, incluindo as de cadeias produtivas altamente sofisticadas.<\/p>\n<p>Esse avan\u00e7o, no entanto, n\u00e3o decorre de improviso ou de modelos prescritivos e est\u00e1ticos como o Consenso de Washington, bem difundido, por exemplo, na Am\u00e9rica Latina, mas sim de uma trajet\u00f3ria longa e disciplinada de fortalecimento institucional e de constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de capacidades nos setores p\u00fablico e privado.<\/p>\n<p>A grande virada chinesa teve in\u00edcio no fim dos anos 1970, com a chamada \u201cPrimavera da Ci\u00eancia\u201d, que recolocou o conhecimento no centro do projeto nacional ap\u00f3s os anos devastadores da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural. Nesse per\u00edodo, as confer\u00eancias nacionais reafirmaram o papel estrat\u00e9gico da ci\u00eancia para a moderniza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica. Em seguida, a China avan\u00e7ou por movimentos sucessivos de aperfei\u00e7oamento do seu sistema de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong><em>Primeira onda de reformas (1985-1998):<\/em><\/strong> quando o sistema de C&amp;T foi reestruturado para responder melhor \u00e0s demandas econ\u00f4micas: institutos de pesquisa passaram a disputar recursos em programas competitivos de P&amp;D, zonas de desenvolvimento tecnol\u00f3gico foram criadas e milhares de cientistas passaram da pesquisa acad\u00eamica para a aplicada, impulsionados por pol\u00edticas de incentivo para se tornarem empreendedores;<br \/>\n<strong><em>Segunda onda (1998-2006)<\/em><\/strong>: priorizou a constru\u00e7\u00e3o de um sistema nacional de inova\u00e7\u00e3o, com reformas em institutos de pesquisa, expans\u00e3o do ensino superior e cria\u00e7\u00e3o de universidades de n\u00edvel internacional, tendo o <em>Knowledge Innovation Program<\/em> da Academia Chinesa de Ci\u00eancias como pilar;<br \/>\n<strong><em>Terceira onda (2006-2013)<\/em><\/strong>: marcada pelo <em>Plano de M\u00e9dio e Longo Prazo em Ci\u00eancia e Tecnologia<\/em>, que consagrou a inova\u00e7\u00e3o end\u00f3gena como meta estrat\u00e9gica at\u00e9 2020, mobilizando grandes investimentos e 16 megaprojetos em \u00e1reas cr\u00edticas;<br \/>\n<strong><em>Quarta onda<\/em><\/strong> <strong><em>(desde 2013)<\/em>:<\/strong> a estrat\u00e9gia de desenvolvimento passou a ser explicitamente orientada pela inova\u00e7\u00e3o, com est\u00edmulo ao empreendedorismo em larga escala, integra\u00e7\u00e3o entre governo, ind\u00fastria e academia e foco em novas fronteiras tecnol\u00f3gicas, em meio a um cen\u00e1rio de competi\u00e7\u00e3o internacional acirrada.<\/p>\n<p>Os resultados concretos da transi\u00e7\u00e3o chinesa s\u00e3o ineg\u00e1veis. O investimento em pesquisa e desenvolvimento cresceu de forma cont\u00ednua, passando de apenas 0,6% do PIB em 1980 para quase 2,7% em 2024, enquanto a participa\u00e7\u00e3o do setor industrial nesse esfor\u00e7o subiu de 35% em 1986 para 77% em 2024. No campo educacional, a taxa de matr\u00edcula no ensino superior saltou de 3,7% em 1990 para mais de 60% em 2024, formando uma ampla base de capital humano altamente qualificado.<\/p>\n<p>Desde 2016, a China lidera em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e registros de patentes, superando Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia. Atualmente, o n\u00famero de empresas chinesas na lista Fortune Global 500 j\u00e1 se equipara ao dos Estados Unidos, evidenciando a for\u00e7a de suas multinacionais. Esse destaque tamb\u00e9m se reflete na inova\u00e7\u00e3o: segundo o Global Innovation Index de 2025, a China ultrapassou os EUA em n\u00famero de clusters tecnol\u00f3gicos entre os 100 mais din\u00e2micos do mundo. Nesse cen\u00e1rio, empresas inovadoras como Huawei, Lenovo, Alibaba e a emergente DeepSeek simbolizam o novo protagonismo global do pa\u00eds.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Essa trajet\u00f3ria mostra a passagem de um pa\u00eds que antes imitava tecnologias estrangeiras e era conhecido como \u201ca f\u00e1brica do mundo\u201d para um centro de inova\u00e7\u00e3o que dita tend\u00eancias. Mais do que n\u00fameros, o que impressiona \u00e9 a complexidade e a continuidade desse processo, que nunca foi r\u00edgido, mas sim marcado pela adapta\u00e7\u00e3o gradual e pela capacidade de aprender com erros e acertos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de copiar um modelo normativo, mas de construir um caminho pr\u00f3prio baseado em pol\u00edticas p\u00fablicas amplamente deliberadas, vis\u00e3o estrat\u00e9gica e forte integra\u00e7\u00e3o entre governo, empresas e universidades.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, hoje, \u00e9 not\u00f3rio que a China enfrenta novos desafios: crescimento menos acelerado como o novo normal, maior competi\u00e7\u00e3o internacional e tens\u00f5es geopol\u00edticas com efeitos prejudiciais ao progresso de setores estrat\u00e9gicos ainda em matura\u00e7\u00e3o, como semicondutores e avia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o horizonte \u00e9 claro. O pr\u00f3ximo 15\u00ba Plano Quinquenal tende a refor\u00e7ar a marca \u201c<em>Innovated in China<\/em>\u201d, abandonando a imagem de mero polo de manufatura e consolidando a ambi\u00e7\u00e3o (cada vez mais realista) de ser a maior pot\u00eancia tecnol\u00f3gica do mundo. No fim das contas, a resposta \u00e0 pergunta que intriga acad\u00eamicos, pol\u00edticos e empres\u00e1rios \u2014 \u201co que explica essa transforma\u00e7\u00e3o chinesa? \u2014 \u00e9 simples e contundente, em analogia ao jarg\u00e3o: \u201c\u00e9 tecnologia, est\u00fapido\u201d!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento sustentado, como j\u00e1 demonstravam os cl\u00e1ssicos da economia do desenvolvimento e o modelo de Solow, n\u00e3o decorre apenas do ac\u00famulo de capital f\u00edsico ou humano, mas sobretudo do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, da difus\u00e3o do conhecimento e da efici\u00eancia institucional. 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