{"id":15617,"date":"2025-10-02T06:03:32","date_gmt":"2025-10-02T09:03:32","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/02\/portaria-mcid-1-012-25-traz-a-funcao-digital-das-cidades\/"},"modified":"2025-10-02T06:03:32","modified_gmt":"2025-10-02T09:03:32","slug":"portaria-mcid-1-012-25-traz-a-funcao-digital-das-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/10\/02\/portaria-mcid-1-012-25-traz-a-funcao-digital-das-cidades\/","title":{"rendered":"Portaria MCID 1.012\/25 traz a fun\u00e7\u00e3o digital das cidades"},"content":{"rendered":"<p>O Direito Urban\u00edstico brasileiro cresceu olhando para a fun\u00e7\u00e3o social da cidade. Foi um avan\u00e7o civilizat\u00f3rio: plano diretor, zoneamento, instrumentos de indu\u00e7\u00e3o e salvaguarda. S\u00f3 que nesta d\u00e9cada trouxe um fato inc\u00f4modo: boa parte desse edif\u00edcio normativo continua dependente de mapas est\u00e1ticos e relat\u00f3rios epis\u00f3dicos, enquanto o cotidiano urbano acontece em fluxos \u2014 de pessoas, de ve\u00edculos, de \u00e1gua, de calor \u2014 e, sobretudo, de dados.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que entra a fun\u00e7\u00e3o digital da cidade. \u00c9 a dimens\u00e3o informacional sem a qual a promessa da fun\u00e7\u00e3o social fica incomprov\u00e1vel. Uma pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o sem s\u00e9ries abertas sobre d\u00e9ficit, cadastros e regulariza\u00e7\u00e3o; uma pol\u00edtica de mobilidade sem dados p\u00fablicos de origem-destino; uma pol\u00edtica ambiental sem camadas de risco e hist\u00f3rico de eventos extremos \u2014 sem dados tudo isso vira f\u00e9, n\u00e3o direito.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A Portaria MCID 1.012, de 5 de setembro de 2025, funcionou como gatilho. Ao organizar a transforma\u00e7\u00e3o digital urbana como servi\u00e7o p\u00fablico cont\u00ednuo de informa\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio das Cidades mudou o eixo do debate: menos fetiche por planos-cat\u00e1logo, mais compromisso com publicidade ativa e interpretabilidade das decis\u00f5es. N\u00e3o se trata de criar uma nova finalidade urbana, mas de dar lastro verific\u00e1vel \u00e0s que j\u00e1 existem. Em bom portugu\u00eas: a cidade n\u00e3o pode depender de \u201creuni\u00f5es de esclarecimento\u201d; precisa ser explic\u00e1vel a qualquer tempo \u2014 por dados, metadados e trilhas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguns dir\u00e3o que isso \u201cinformatiza\u201d o urbanismo. Engano. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 juridificar aquilo que, por conforto ou conveni\u00eancia, foi terceirizado ao reino da caixa-preta. Quando a portaria condiciona conv\u00eanios e programas a padr\u00f5es m\u00ednimos de publica\u00e7\u00e3o e qualidade informacional, n\u00e3o est\u00e1 pedindo luxo tecnol\u00f3gico. Est\u00e1 dizendo que sem luz n\u00e3o h\u00e1 controle: nem social, nem institucional. Quem se irrita com essa conversa em geral prefere que o debate siga opaco \u2014 mais espa\u00e7o para o casu\u00edsmo e para o varejo de exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 bons sinais no pa\u00eds. GeoSampa em S\u00e3o Paulo, GeoFloripa em Florian\u00f3polis, Filipeia em Jo\u00e3o Pessoa, iniciativas locais como o Barbosa Digital Geo em Carlos Barbosa (RS). O que elas t\u00eam em comum? Tornam vis\u00edvel a cidade que costuma ficar escondida: hidrografia e drenagem, uso do solo e licenciamento, redes e servid\u00f5es, cicatrizes da emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Quando o dado aparece, a pol\u00edtica muda de textura: o cidad\u00e3o deixa de ser plateia, o Minist\u00e9rio P\u00fablico ganha insumo s\u00e9rio, o gestor passa a ser cobrado pelo tempo real \u2014 n\u00e3o pelo release.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m separar as coisas: fun\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201ccidade inteligente\u201d. A ret\u00f3rica \u201csmart\u201d costuma vir acoplada a solu\u00e7\u00f5es propriet\u00e1rias, contratos longos, depend\u00eancia tecnol\u00f3gica. A fun\u00e7\u00e3o digital \u00e9 mais ch\u00e3o-de-f\u00e1brica: transpar\u00eancia, interoperabilidade, reuso e responsividade como compromissos de governo local. Isso conversa com marcos externos, como a Executive Order 12906 (EUA) e a Diretiva INSPIRE (UE), mas tem sotaque brasileiro: munic\u00edpios com or\u00e7amentos apertados, demandas gigantes e uma federa\u00e7\u00e3o que cobra resultados.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 quem levante a bandeira da privacidade. E deve levantar. A boa not\u00edcia \u00e9 que a mesma r\u00e9gua que exige dado p\u00fablico exige governan\u00e7a de dado pessoal: mapeamento de opera\u00e7\u00f5es, avalia\u00e7\u00e3o de impacto quando for o caso, limites claros para uso de geolocaliza\u00e7\u00e3o individualizante. A portaria n\u00e3o resolve tudo \u2014 seria uma pretens\u00e3o desmedida \u2014, mas coloca a quest\u00e3o no lugar certo: n\u00e3o se combate vigil\u00e2ncia com escurid\u00e3o; combate-se com regra, registro e responsabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fundo, o que a Portaria MCID 1.012\/2025 faz \u00e9 lembrar o \u00f3bvio: cidade tamb\u00e9m \u00e9 servi\u00e7o, e servi\u00e7o se mede. Quem entrega cat\u00e1logos acess\u00edveis, camadas p\u00fablicas e hist\u00f3rico de atualiza\u00e7\u00e3o permite que o eleitor, o controle e a academia acompanhem pol\u00edticas em andamento, corrijam rota e comparem escolhas. Quem n\u00e3o entrega pede um voto de confian\u00e7a perp\u00e9tuo. Entre a cidade-servi\u00e7o e a cidade-mist\u00e9rio, j\u00e1 sabemos qual produz mais lit\u00edgio, mais desigualdade e mais improviso.<\/p>\n<p>Falta, ent\u00e3o, vontade pol\u00edtica. A tecnologia necess\u00e1ria j\u00e1 est\u00e1 na pra\u00e7a; a cultura institucional, nem sempre. Secretarias e autarquias seguem ref\u00e9ns de fornecedores que vendem solu\u00e7\u00e3o fechada \u201cfim a fim\u201d e mant\u00eam o dado numa esp\u00e9cie de feudo digital.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o digital aponta outra dire\u00e7\u00e3o: portabilidade, reversibilidade e competi\u00e7\u00e3o por m\u00e9rito \u2014 com o munic\u00edpio no controle do seu acervo informacional. N\u00e3o \u00e9 romantismo; \u00e9 prud\u00eancia or\u00e7ament\u00e1ria e prote\u00e7\u00e3o republicana contra aprisionamento tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O s\u00e9culo 20 ensinou que a fun\u00e7\u00e3o social da cidade d\u00e1 conte\u00fado \u00e0 propriedade, \u00e0 mobilidade e \u00e0 moradia. O 21 come\u00e7a a mostrar que, sem fun\u00e7\u00e3o digital, tudo isso perde prova, lastro e densidade. \u00c9 nesse ponto que emerge o Direito Urban\u00edstico Geogr\u00e1fico: n\u00e3o \u00e9 rebranding de \u201ccidades inteligentes\u201d, mas tradu\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que imp\u00f5e transpar\u00eancia geoinformacional, padr\u00f5es abertos e auditabilidade cont\u00ednua \u2014 enquanto a agenda \u201csmart\u201d pode existir sem prova p\u00fablica e sob depend\u00eancia propriet\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o precisa de mais slogans; precisa de regras claras para luz acesa. A Portaria MCID 1.012\/2025 acendeu o interruptor. Cabe \u00e0 comunidade jur\u00eddica oferecer a teoria adequada para que a fun\u00e7\u00e3o digital das cidades ordene a governan\u00e7a p\u00fablica.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Direito Urban\u00edstico brasileiro cresceu olhando para a fun\u00e7\u00e3o social da cidade. 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