{"id":15234,"date":"2025-09-29T05:58:20","date_gmt":"2025-09-29T08:58:20","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/29\/dilemas-da-arquitetura-financeira-e-a-crise-climatica\/"},"modified":"2025-09-29T05:58:20","modified_gmt":"2025-09-29T08:58:20","slug":"dilemas-da-arquitetura-financeira-e-a-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/29\/dilemas-da-arquitetura-financeira-e-a-crise-climatica\/","title":{"rendered":"Dilemas da arquitetura financeira e a crise clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos tem crescido a preocupa\u00e7\u00e3o de diferentes players em torno da constru\u00e7\u00e3o de uma nova arquitetura financeira internacional para que o planeta possa superar as desigualdades entre o Norte e o Sul Globais e viabilizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS), cujos custos s\u00e3o estimados em US$ 2 trilh\u00f5es anuais.<\/p>\n<p>Essa inquieta\u00e7\u00e3o constou de <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-024-04159-7\">editorial da prestigiosa revista cient\u00edfica Nature<\/a> no final do ano passado, que avaliava que 2025 concentraria esfor\u00e7os para viabilizar esta mudan\u00e7a, impulsionando a economia verde.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A expectativa da Nature estava concentrada na realiza\u00e7\u00e3o da 4\u00aa Confer\u00eancia Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento da ONU, em junho e julho, em Sevilha (Espanha), que ofereceria uma oportunidade para reformar a governan\u00e7a financeira do mundo, essencial para o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Contudo, o <a href=\"https:\/\/www.un.org\/sustainabledevelopment\/blog\/2025\/07\/ffd4-closing-press-release\/\">Compromisso de Sevilha<\/a>, documento final do encontro, n\u00e3o atingiu os compromissos para superar o desafio do financiamento clim\u00e1tico e a preserva\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, mesmo com as 130 iniciativas propostas.<\/p>\n<p>A busca por uma nova arquitetura financeira implica em incorporar princ\u00edpios de\u00a0 sustentabilidade de longo prazo, reforma dos mecanismos de financiamento para atingir os pa\u00edses mais vulner\u00e1veis e mudan\u00e7a no papel que os bancos centrais possuem no combate \u00e0 crise clim\u00e1tica, orientando o mercado \u00e0 sustentabilidade ambiental, promovendo iniciativas como investimentos verdes, financiamento de projetos de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 defini\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios p\u00fablicos para contribuir com a transi\u00e7\u00e3o para uma economia de baixo carbono.<\/p>\n<p>Para medir as correla\u00e7\u00f5es entre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e pol\u00edticas financeiras criou-se um ranking dos bancos centrais do G20, com base em consultas a\u00a0 especialistas e banqueiros pelo <a href=\"https:\/\/greencentralbanking.com\/scorecard\/Instituto\">Green Central Banking<\/a>. Nesse levantamento, o Brasil ocupa o 5\u00ba lugar, sendo superado apenas pela Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e Uni\u00e3o Europeia, obtendo 71 pontos, Nota B- (em escala de A +at\u00e9 F). O Brasil fica \u00e0 frente de pa\u00edses como China, R\u00fassia, Estados Unidos, entre outros.<\/p>\n<p>O Banco Central brasileiro tem impulsionado a sustentabilidade e recentemente lan\u00e7ou a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Relat\u00f3rio de Riscos e Oportunidade Sociais, Ambientais e Clim\u00e1ticos (RIS), que consolida o compromisso com a sustentabilidade, inclusive, com engajamento na COP30, que ocorrer\u00e1 em Bel\u00e9m em novembro.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio BC elenca o que considera avan\u00e7os regulat\u00f3rios: \u201cobrigatoriedade de as institui\u00e7\u00f5es financeiras elaborarem e divulgarem relat\u00f3rio de informa\u00e7\u00f5es sobre sustentabilidade; a consulta p\u00fablica sobre ativos e passivos de a\u00e7\u00f5es de sustentabilidade; e a amplia\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es por institui\u00e7\u00f5es financeiras. No cr\u00e9dito rural, foram aprovadas diversas mudan\u00e7as no Manual de Cr\u00e9dito Rural, e h\u00e1 em perspectiva o projeto de aprimoramento do Bureau\u201d.<\/p>\n<p>Primeiro colocado no ranking, o <a href=\"https:\/\/www.banque-france.fr\/fr\/banque-de-france\/banque-centrale-engagee\/climat-nature-finance-durable\">Banco Central da Fran\u00e7a<\/a> \u00e9 enf\u00e1tico ao ressaltar que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o uma fonte de riscos financeiros, sendo que\u00a0 o\u00a0 combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e1 no centro de seu plano estrat\u00e9gico intitulado \u201cConstruir Juntos 2024\u201d, formado por cinco a\u00e7\u00f5es, que buscam preparar a institui\u00e7\u00e3o para enfrentar os\u00a0 riscos f\u00edsicos e de transi\u00e7\u00e3o associados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: i) adaptar as opera\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria aos riscos clim\u00e1ticos; ii) aumentar a considera\u00e7\u00e3o do setor financeiro sobre o risco clim\u00e1tico; iii) avaliar toda a gama de riscos clim\u00e1ticos nas classifica\u00e7\u00f5es das empresas; iv)\u00a0 comprometer-se ativamente com a neutralidade de carbono e v) buscar a sobriedade digital em todos os nossos usos.<\/p>\n<p>Em 6\u00ba lugar, subsequente ao Brasil, a China tamb\u00e9m registra mudan\u00e7as no papel atribu\u00eddo ao seu\u00a0 banco central. Pesquisadores chineses apontam que os impactos das medidas adotadas pelo Banco Popular da China, ao incluir ativos verde como garantia eleg\u00edvel para Linha de Cr\u00e9dito de M\u00e9dio Prazo, vem implicando em melhoria das pontua\u00e7\u00f5es ESG nas empresas listadas que foram afetadas, sendo \u00a0que o emprego de novos instrumentos de pol\u00edtica monet\u00e1ria podem levar a China a um desenvolvimento econ\u00f4mico mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pa\u00eds que ditou a atual arquitetura financeira do mundo ap\u00f3s a Segunda Guerra, os Estados Unidos n\u00e3o deixam de ter um olhar para a quest\u00e3o. \u201cAcredito que o risco clim\u00e1tico \u00e9 um risco real para n\u00f3s como sociedade e provavelmente ser\u00e1 um risco para o sistema financeiro\u201d. A <a href=\"https:\/\/greencentralbanking.com\/2025\/07\/08\/feds-top-climate-official-leaves-us-central-bank-bloomberg-reports\/\">frase \u00e9 de Michael Barr<\/a>, membro do Conselho de Governadores do Federal Reserve e uma das autoridades monet\u00e1rias mais respeitadas dos EUA, para quem um risco clim\u00e1tico deve ser t\u00e3o preocupante quanto os demais riscos. Contudo, o Fed fechou no in\u00edcio deste ano o seu Comit\u00ea de Supervis\u00e3o Clim\u00e1tica e deixou a Rede de Bancos Centrais e Supervisores para um Sistema Financeiro Verde.<\/p>\n<p>Independente da indefini\u00e7\u00e3o no horizonte dos EUA, bancos centrais t\u00eam buscado\u00a0 mensurar a resili\u00eancia do sistema financeiro \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1tica por meio dos testes de estresse clim\u00e1tico, que consistem em simula\u00e7\u00f5es que avaliam como choques relacionados ao clima \u2014 f\u00edsicos ou de transi\u00e7\u00e3o \u2014 s\u00e3o capazes de afetar a sa\u00fade financeira de bancos, seguradoras, fundos de investimento e, por extens\u00e3o, a estabilidade do sistema financeiro como um todo.<\/p>\n<p>Os cen\u00e1rios utilizados para o teste s\u00e3o projetados por organiza\u00e7\u00f5es, como o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas), bra\u00e7o cient\u00edfico da ONU. Esses testes s\u00e3o inspirados nos testes de estresse tradicionais usados para avaliar a resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es financeiras diante de crises econ\u00f4micas, mas incorporam vari\u00e1veis e cen\u00e1rios espec\u00edficos relacionados ao clima.<\/p>\n<p>Os riscos f\u00edsicos est\u00e3o relacionados aos danos diretos causados por eventos clim\u00e1ticos extremos ou mudan\u00e7as graduais no clima . J\u00e1 os riscos de transi\u00e7\u00e3o envolvem \u00e0s mudan\u00e7as pol\u00edticas, tecnol\u00f3gicas e regulat\u00f3rias necess\u00e1rias para mitigar as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>Nessa nova perspectiva de constru\u00e7\u00e3o de uma nova e sustent\u00e1vel arquitetura financeira global, tamb\u00e9m h\u00e1 iniciativas coletivas que trazem sua contribui\u00e7\u00e3o, como da Rede para Ecologiza\u00e7\u00e3o do Sistema Financeiro (NGFS), que consiste em uma coaliz\u00e3o global de bancos centrais e autoridades de supervis\u00e3o financeira, que desempenha um papel estrat\u00e9gico na integra\u00e7\u00e3o dos riscos clim\u00e1ticos e ambientais ao sistema financeiro internacional. Criada em 2017, a NGFS surgiu como resposta \u00e0 crescente conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica na estabilidade financeira e \u00e0 necessidade de alinhar o setor financeiro com os ODS do Acordo de Paris.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da NGFS reside em sua capacidade de promover coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, disseminar boas pr\u00e1ticas e desenvolver ferramentas anal\u00edticas de orienta\u00e7\u00e3o, como elaborar cen\u00e1rios macroecon\u00f4micos, que simulam os impactos de diferentes trajet\u00f3rias de emiss\u00f5es de carbono, permitindo que bancos centrais e institui\u00e7\u00f5es financeiras avaliem riscos e adaptem suas estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>A Rede ainda possibilita que os supervisores integrem riscos ambientais nas an\u00e1lises de solv\u00eancia, liquidez e estabilidade das institui\u00e7\u00f5es financeiras e atua como plataforma de troca de conhecimento, fortalecendo capacidades t\u00e9cnicas em pa\u00edses em desenvolvimento e promovendo uma abordagem coordenada para a \u201cecologiza\u00e7\u00e3o\u201d do sistema financeiro.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros globais mais do que justificam a decis\u00e3o dos bancos centrais que caminham no sentido de uma nova arquitetura financeira, alinhada ao\u00a0 ESG (boas pr\u00e1ticas ambientais, sociais e de governan\u00e7a), uma vez\u00a0 que os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas custaram ao mundo US$ 320 bilh\u00f5es em 2024.<\/p>\n<p>A atual estrutura financeira internacional, baseada em modelos de crescimento econ\u00f4mico intensivo em carbono, mostra-se inadequada para enfrentar os desafios da sustentabilidade. A crise clim\u00e1tica exige investimentos trilion\u00e1rios em energias renov\u00e1veis, infraestrutura resiliente, conserva\u00e7\u00e3o ambiental e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2014 especialmente em pa\u00edses em desenvolvimento, que enfrentam limita\u00e7\u00f5es fiscais e vulnerabilidades socioecon\u00f4micas.<\/p>\n<p>Nesse entrela\u00e7amento entre clima e finan\u00e7as, a atua\u00e7\u00e3o de organismos multilaterais e de consultorias especializadas ganham um papel quase interseccional: s\u00e3o int\u00e9rpretes do indiz\u00edvel, que traduzem m\u00e9tricas \u00e1ridas em mapas de futuro. Mais do que n\u00fameros, oferecem b\u00fassolas \u2014 antecipam riscos, iluminam oportunidades e ajudam a erguer pontes entre a arquitetura financeira global e as urg\u00eancias da sustentabilidade. \u00c9 nesse trabalho silencioso de media\u00e7\u00e3o que, muitas vezes, se desenha a possibilidade real de transformar promessas em pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Nessa corrida, a COP30 pode ser considerada o segundo f\u00f3rum global de 2025,\u00a0 depois de Sevilha, que oferecer\u00e1 uma oportunidade para que l\u00edderes globais avancem na constru\u00e7\u00e3o de uma arquitetura financeira mais verde. A Confer\u00eancia do Clima em Bel\u00e9m tende a ser um espa\u00e7o decisivo para redefinir alguns novos fundamentos financeiros mundiais ligados \u00e0 crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Parte do sucesso do evento depender\u00e1 da capacidade de os pa\u00edses transformarem promessas em mecanismos concretos de financiamento e coopera\u00e7\u00e3o internacional. Em um contexto de crescente urg\u00eancia ambiental, a confer\u00eancia pode ser decisiva para que o sistema financeiro global se reinvente e se torne tamb\u00e9m um agente da transforma\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos tem crescido a preocupa\u00e7\u00e3o de diferentes players em torno da constru\u00e7\u00e3o de uma nova arquitetura financeira internacional para que o planeta possa superar as desigualdades entre o Norte e o Sul Globais e viabilizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS), cujos custos s\u00e3o estimados em US$ 2 trilh\u00f5es anuais. 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