{"id":14134,"date":"2025-09-05T06:02:16","date_gmt":"2025-09-05T09:02:16","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/05\/como-videos-gerados-por-ia-alimentam-a-polarizacao-afetiva\/"},"modified":"2025-09-05T06:02:16","modified_gmt":"2025-09-05T09:02:16","slug":"como-videos-gerados-por-ia-alimentam-a-polarizacao-afetiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/05\/como-videos-gerados-por-ia-alimentam-a-polarizacao-afetiva\/","title":{"rendered":"Como v\u00eddeos gerados por IA alimentam a polariza\u00e7\u00e3o afetiva"},"content":{"rendered":"<p>Uma jovem adolescente aparece num v\u00eddeo vestindo preto, maquiagem carregada e ar s\u00e9rio. Ela se dirige ao pai, num tom de desafio: \u201cPai, eu sou g\u00f3tica. Respeita as minhas escolhas.\u201d O pai, sem pestanejar, retruca: \u201cV\u00e1 limpar a casa!\u201d. A garota ent\u00e3o sai correndo pelo quintal gritando: \u201cNingu\u00e9m me respeita aqui em Xique\u2011Xique, Bahia!\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, parece apenas mais um meme para gerar piada nas redes sociais. Mas, na verdade, esse \u00e9 apenas um entre milhares de v\u00eddeos que performam identidades sociais com estere\u00f3tipo, com o objetivo de ridicularizar, aprofundando barreiras simb\u00f3licas entre grupos que, na esfera pol\u00edtica, se veem cada vez mais como inimigos afetivos e n\u00e3o apenas advers\u00e1rios ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Uma persona, normalmente parte de alguma minoria social, pede respeito a pais ou av\u00f3s, e a resposta vem num tom de deboche, dizendo \u201cvai trabalhar\u201d ou, no caso das mulheres, \u201cvai limpar a casa\u201d ou \u201cvai lavar uma lou\u00e7a\u201d. Assim, cria-se espa\u00e7o para preconceito velado estar cada vez mais presente nas redes sociais: um conte\u00fado que refor\u00e7a estere\u00f3tipos e consolida pap\u00e9is sociais arcaicos, materializando discrimina\u00e7\u00e3o em forma de piada, sem que ningu\u00e9m precise se responsabilizar pela autoria, afinal, esse exemplo apresentando \u00e9 um v\u00eddeo produzido por <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/inteligencia-artificial\">intelig\u00eancia artificial<\/a>.<\/p>\n<h3>A pol\u00edtica por tr\u00e1s do meme<\/h3>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de memes e piadas, as IAs generativas de v\u00eddeo est\u00e3o materializando discursos de \u00f3dio sem assinatura, transformando as redes em um verdadeiro faroeste digital. O <a href=\"https:\/\/deepmind.google\/models\/veo\/\">Veo\u202f3<\/a>, um dos modelos de gera\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo mais famosos do momento, revolucionou o mercado ao oferecer uma interface extremamente simples para cria\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos hiperrealistas, com sincroniza\u00e7\u00e3o de voz, express\u00f5es faciais e legendas, a um custo baixo, \u00e0s vezes at\u00e9 gratuito.<\/p>\n<p>Em poucos cliques, qualquer usu\u00e1rio pode produzir clipes de qualidade <em>broadcast<\/em>, antes restritos a grandes est\u00fadios. Essa mesma facilidade e rapidez que fazem do Veo\u202f3 uma ferramenta poderosa para marketing, educa\u00e7\u00e3o ou arte, o tornam tamb\u00e9m uma arma quando empregado para fins escusos: <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/deepfakes\"><em>deepfakes <\/em><\/a>eleitorais, propaganda de \u00f3dio e discursos de intoler\u00e2ncia ganham escala instant\u00e2nea, camada ap\u00f3s camada, somando na dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio e desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o para na piada. Liliana Mason aponta que a polariza\u00e7\u00e3o afetiva ocorre quando m\u00faltiplas identidades sociais, como ideologia, religi\u00e3o, etnia ou classe, convergem, criando um sentimento de pertencimento tribal e, ao mesmo tempo, uma rejei\u00e7\u00e3o visceral ao outro. Nessa din\u00e2mica, o julgamento pol\u00edtico passa a ser mediado por emo\u00e7\u00f5es intensas e n\u00e3o pela an\u00e1lise racional.<\/p>\n<p>Outro exemplo circula na fila do INSS, onde rep\u00f3rteres entrevistam idosos sobre o que far\u00e3o com o benef\u00edcio, as respostas: \u201cvou gastar no tigrinho\u201d, \u201cvou comprar cacha\u00e7a\u201d ou \u201cquem sabe arrumar um novo namorado\u201d, resultam em risadas c\u00famplices entre entrevistado e jornalista. \u00c0 primeira vista, parecem apenas piadas leves, mas acabam funcionando como engrenagens simb\u00f3licas de uma cultura que naturaliza a desigualdade e cristaliza preconceitos sob a m\u00e1scara da leveza. \u00c9 conte\u00fado suficiente para desacreditar programas sociais e pol\u00edticas p\u00fablicas com base em uma imagem caricata sobre seu p\u00fablico benefici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para ilustrar como essa din\u00e2mica se espalha com rapidez, basta pesquisar \u201cVeo 3 PT\u201d ou \u201cVeo 3 Lula\u201d no TikTok, Facebook, YouTube ou Instagram: surgem v\u00eddeos que retratam militantes petistas em tom depreciativo e desqualificador. Conte\u00fados que refor\u00e7am uma din\u00e2mica de \u201cothering\u201d e avers\u00e3o, dois ingredientes do que a literatura recente chama de sectarismo pol\u00edtico. Esses clipes evidenciam como a ferramenta j\u00e1 \u00e9 explorada para refor\u00e7ar a disputa pol\u00edtica, divulgando narrativas negativas sobre advers\u00e1rios partid\u00e1rios e ampliando ainda mais a polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Anonimato vantajoso<\/h3>\n<p>O anonimato conferido pelas IAs generativas de v\u00eddeo funciona como um poderoso incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o desse tipo de material: sem precisar se expor, qualquer pessoa, ou qualquer grupo interessado em espalhar ideias extremistas, pode criar clipes carregados de \u00f3dio, preconceito e estere\u00f3tipos com poucos cliques. Ferramentas como o Veo\u202f3 viabilizam um verdadeiro \u201catirador solit\u00e1rio\u201d digital, que dispara suas mensagens ideol\u00f3gicas sem jamais assumir a autoria.<\/p>\n<p>Esse anonimato acelera a forma\u00e7\u00e3o de comunidades pol\u00edticas baseadas em afetos negativos compartilhados. Ao refor\u00e7ar emo\u00e7\u00f5es como raiva e desprezo, a IA colabora para a consolida\u00e7\u00e3o de bolhas identit\u00e1rias r\u00edgidas, onde o outro \u00e9 visto como amea\u00e7a existencial, e n\u00e3o como interlocutor pol\u00edtico leg\u00edtimo. A desinforma\u00e7\u00e3o torna-se ent\u00e3o um catalisador de v\u00ednculos emocionais exclusivos.<\/p>\n<p>Antes, muitos hesitavam em veicular ataques justamente pelo receio de serem identificados; hoje, a impunidade aparente estimula a circula\u00e7\u00e3o de humor duvidoso e discursos t\u00f3xicos, ocupando o feed de maneira desenfreada. O resultado \u00e9 um ambiente que se assemelha a um faroeste digital, em que a lei, seja moral, social ou legal, parece n\u00e3o existir, e todos os \u201ctiros\u201d midi\u00e1ticos ecoam sem destino certo, aprofundando a polariza\u00e7\u00e3o e corroendo qualquer senso de responsabilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ambiente de faroeste digital que a disputa de ideias se intensifica de forma preocupante. E a polariza\u00e7\u00e3o afetiva j\u00e1 n\u00e3o preocupa. Ela governa: todo clipe, at\u00e9 aqueles vendidos como mero entretenimento ou humor, carrega um vi\u00e9s ideol\u00f3gico e um brilho de radicalismo.<\/p>\n<p>A facilidade de produ\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de filtro transformam a timeline num campo minado de posi\u00e7\u00f5es extremas, onde cada \u201cbrincadeira\u201d refor\u00e7a vis\u00f5es polarizadas e alimenta preconceitos velados. Aos poucos, a sociedade \u00e9 empurrada para bordas opostas, incapaz de dialogar no centro, enquanto as redes se enchem de estere\u00f3tipos disfar\u00e7ados e provoca\u00e7\u00f5es calculadas, retroalimentando um ciclo de intoler\u00e2ncia que mina qualquer possibilidade de conv\u00edvio plural.<\/p>\n<h3>Para muito al\u00e9m do digital<\/h3>\n<p>In\u00fameros estere\u00f3tipos e preconceitos que pareciam perder espa\u00e7o na sociedade hoje retornam com for\u00e7a renovada. Piadas que, h\u00e1 poucos anos, j\u00e1 n\u00e3o eram mais aceitas voltam a arrancar risadas, agora, revestidas de uma suposta irrever\u00eancia que disfar\u00e7a sua carga ideol\u00f3gica. Esse humor \u201cde retorno\u201d encontra terreno f\u00e9rtil num ambiente de ressentimento coletivo e polariza\u00e7\u00e3o, onde express\u00f5es antes marginais ganham nova audi\u00eancia, n\u00e3o por serem engra\u00e7adas, mas por reafirmarem a fronteira simb\u00f3lica entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d.<\/p>\n<p>Contratos sociais arcaicos ganham novo f\u00f4lego quando circulam em v\u00eddeos an\u00f4nimos, e o que parecia superado volta a ocupar lugar de destaque no entretenimento de muitos. Enquanto essas mudan\u00e7as se d\u00e3o quase exclusivamente nas redes, grande parte das pessoas n\u00e3o percebe o problema, mas, quando o \u00f3dio e o preconceito desembarcam na vida real, \u00e9 a\u00ed que a \u201crealidade\u201d se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Foi exatamente isso que se viu em 2018, quando a polariza\u00e7\u00e3o nas redes sociais transbordou para o cotidiano dos brasileiros. Em abril daquele ano, o mestre de capoeira Romualdo Ros\u00e1rio da Costa, conhecido como <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/eleicoes\/polarizacao-nas-eleicoes-2018-desemboca-em-violencia,824f1c34481bd3ac2b9add5cd222827f3t9w1a0x.html\">Moa do Katend\u00ea<\/a>, de 63 anos, foi brutalmente assassinado a facadas em Salvador ao defender um candidato do PT. Um crime motivado politicamente que chocou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Casos como esse mostram como o \u00f3dio digital n\u00e3o apenas antecipa, mas frequentemente molda a a\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A polariza\u00e7\u00e3o afetiva, como demonstra Mason, distorce a percep\u00e7\u00e3o do outro a ponto de torn\u00e1-lo merecedor de puni\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o ou exclus\u00e3o violenta.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Paralelamente, as <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2018\/noticia\/2018\/10\/04\/eleicao-abala-grupos-de-amigos-e-familias-no-whatsapp-veja-historias-e-dicas-para-lidar-com-discordias.ghtml\">tens\u00f5es nas timelines<\/a> e em grupos de WhatsApp e Telegram atingiram n\u00edveis t\u00e3o altos que in\u00fameras fam\u00edlias relataram o fim de rela\u00e7\u00f5es, desde amizades de longa data at\u00e9 casamentos, em raz\u00e3o de discord\u00e2ncias pol\u00edticas irreconcili\u00e1veis. Almo\u00e7os de domingo foram cancelados, conversas familiares evitaram qualquer men\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica e muitos lares se dividiram, revelando como a viol\u00eancia virtual transbordou para a vida real, corroendo v\u00ednculos afetivos.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o afetiva, longe de ser apenas um subproduto espont\u00e2neo da pol\u00edtica digital, \u00e9 cada vez mais instrumentalizada como estrat\u00e9gia ativa de mobiliza\u00e7\u00e3o. O conte\u00fado emocionalmente carregado, piadas, memes, v\u00eddeos, cumpre uma fun\u00e7\u00e3o estrutural: refor\u00e7ar v\u00ednculos dentro do grupo e desumanizar o outro. O espa\u00e7o p\u00fablico se fragmenta em zonas de hostilidade afetiva, minando as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de coexist\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>E \u00e9 assim que um v\u00eddeo aparentemente inocente sobre \u201cXique-Xique, Bahia\u201d \u00e9 instrumentalizado pela din\u00e2mica do \u00f3dio. N\u00e3o se trata de um debate moralista sobre qual piada \u00e9 aceit\u00e1vel ou n\u00e3o, ou ent\u00e3o sobre uma postura conhecida como \u201cpoliticamente correto\u201d. Mas, na verdade, se aprendemos que \u201cde gr\u00e3o em gr\u00e3o, a galinha enche o papo\u201d, na era da <em>deepfake<\/em>: de v\u00eddeo em v\u00eddeo, a IA distribui \u00f3dio em alta resolu\u00e7\u00e3o, formando concep\u00e7\u00f5es cada vez mais estereotipadas sobre o outro, virtualizando a realidade. Quem paga a conta \u00e9 o conv\u00edvio. E, no fim, a democracia.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma jovem adolescente aparece num v\u00eddeo vestindo preto, maquiagem carregada e ar s\u00e9rio. Ela se dirige ao pai, num tom de desafio: \u201cPai, eu sou g\u00f3tica. Respeita as minhas escolhas.\u201d O pai, sem pestanejar, retruca: \u201cV\u00e1 limpar a casa!\u201d. 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