{"id":14096,"date":"2025-09-04T05:16:01","date_gmt":"2025-09-04T08:16:01","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/04\/precisamos-falar-sobre-pobreza-energetica\/"},"modified":"2025-09-04T05:16:01","modified_gmt":"2025-09-04T08:16:01","slug":"precisamos-falar-sobre-pobreza-energetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/04\/precisamos-falar-sobre-pobreza-energetica\/","title":{"rendered":"Precisamos falar sobre pobreza energ\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>O governo federal encaminhou ao Congresso Nacional a <a href=\"https:\/\/pesquisa.in.gov.br\/imprensa\/jsp\/visualiza\/index.jsp?data=21\/05\/2025&amp;jornal=600&amp;pagina=1&amp;totalArquivos=3\">MP 1300<\/a>, que trata sobre a reforma do setor el\u00e9trico. Entre as inova\u00e7\u00f5es institucionais, tem-se a altera\u00e7\u00e3o da Tarifa Social de Energia El\u00e9trica (TSEE) que visa isentar cerca de 60 milh\u00f5es de pessoas do pagamento da conta de luz.<\/p>\n<p>O impacto financeiro est\u00e1 estimado em R$ 3,6 bilh\u00f5es por ano. No mesmo m\u00eas, a Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica (EPE), ligada ao Minist\u00e9rio de Minas e Energia, lan\u00e7ou o Observat\u00f3rio Brasileiro de Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza Energ\u00e9tica (Obepe), que inclui uma <a href=\"https:\/\/dashboard.epe.gov.br\/apps\/OBEPE\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">plataforma interativa com indicadores <\/a>sobre o tema. A TSEE \u00e9, de fato, necess\u00e1ria?<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-conversao-jota-pro-energia\">Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Energia, monitoramento jur\u00eddico e pol\u00edtico para empresas do setor<\/a><\/h3>\n<p>Neste artigo, pretendemos contribuir com este debate. Como ponto de partida, precisamos definir o que \u00e9 pobreza energ\u00e9tica.<\/p>\n<h3>O que \u00e9 pobreza energ\u00e9tica?<\/h3>\n<p>De acordo com a Uni\u00e3o Europeia, pobreza energ\u00e9tica \u00e9 a incapacidade dos domic\u00edlios de atender \u00e0s suas necessidades energ\u00e9ticas b\u00e1sicas, como aquecer ou resfriar a casa, ou pagar as contas de energia em dia.<\/p>\n<p>Trata-se de um problema complexo, causado por uma combina\u00e7\u00e3o de elementos contextuais (como localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, tipo de habita\u00e7\u00e3o, infraestrutura dispon\u00edvel, pre\u00e7os de energia) e individuais (como renda, idade, estado de sa\u00fade e composi\u00e7\u00e3o familiar).<\/p>\n<p>A pobreza energ\u00e9tica pode se manifestar em interrup\u00e7\u00f5es no acesso \u00e0 energia, na incapacidade de manter n\u00edveis adequados de conforto t\u00e9rmico ou na impossibilidade de utilizar servi\u00e7os energ\u00e9ticos essenciais a um pre\u00e7o acess\u00edvel.<\/p>\n<p>Imagine passar um inverno inteiro no Rio Grande do Sul sem nenhum acesso \u00e0 calefa\u00e7\u00e3o ou estudar o ano todo em escolas do Norte ou Nordeste sem ar-condicionado?<\/p>\n<p>Em ambos os casos, teremos problemas de vulnerabilidade t\u00e9rmica. Tamb\u00e9m n\u00e3o adianta muito ter acesso \u00e0 energia, se o valor da conta no final do m\u00eas comprometer uma parcela expressiva do rendimento domiciliar.<\/p>\n<h3>A origem do conceito<\/h3>\n<p>O conceito surgiu no fim da d\u00e9cada de 1970, quando <a href=\"https:\/\/www.federalreserve.gov\/econres\/feds\/files\/2025026pap.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Isherwood e Hancock<\/a> identificaram a vulnerabilidade de agregados familiares que gastavam duas vezes mais do que a m\u00e9dia nacional em combust\u00edveis, luz e outra energia.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, no livro <em>Fuel poverty: from cold homes to affordable warmth<\/em>, Brenda Boardman consolida o termo \u201cpobreza energ\u00e9tica\u201d e, pela primeira vez, o tema sobre a incapacidade de as fam\u00edlias pagarem por servi\u00e7os b\u00e1sicos de energia entra na agenda global.<\/p>\n<p>Para Boardman, fam\u00edlias que gastam mais de 10% de sua renda em energia, ou trocam alimentos por energia, estariam em situa\u00e7\u00e3o de pobreza relativa de combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, diversos pesquisadores e formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas tentaram construir indicadores para mensurar a preval\u00eancia de pobreza energ\u00e9tica na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Iniciativas para medir a pobreza energ\u00e9tica<\/h3>\n<p>Diferente de indicadores como IDH e Gini, ainda n\u00e3o existe um \u00edndice consolidado para medir a pobreza energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Um dos modelos mais usados em perspectiva comparada \u00e9 o \u00cdndice Multidimensional de Pobreza Energ\u00e9tica (MEPI), proposto por <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S1364032111003972\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Patrick Nussbaumer e colaboradores<\/a> em 2012. O \u00edndice trabalha com cinco dimens\u00f5es (tipo de combust\u00edvel para a prepara\u00e7\u00e3o de alimentos, acesso \u00e0 eletricidade\/ilumina\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os providos por eletrodom\u00e9sticos, entretenimento\/educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o) e fornece uma m\u00e9trica focada no acesso \u00e0 energia e na qualidade, quantidade e funcionalidade dos servi\u00e7os energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A partir de 2018, a Uni\u00e3o Europeia, atrav\u00e9s do Observat\u00f3rio de Pobreza Energ\u00e9tica (Energy Poverty Observatory ou EPOV), consolidou esfor\u00e7os para sistematizar o diagn\u00f3stico da pobreza energ\u00e9tica com aux\u00edlio do <a href=\"https:\/\/energy-poverty.ec.europa.eu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Energy Poverty Advisory Hub (EPAH)<\/a>, que passou a oferecer um manual com orienta\u00e7\u00f5es para coleta de dados e identifica\u00e7\u00e3o de indicadores.<\/p>\n<p>E o Brasil? O que fizemos nesse meio tempo?<\/p>\n<h3>A pobreza e as desigualdades energ\u00e9ticas no Brasil<\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/pt-br\/publicacoes\/6421-energia-pobreza-problemas-desenvolvimento-energetico-grupos-sociais-marginais-areas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Schaeffer e colaboradores (2003)<\/a> sintetizaram os estudos iniciais sobre pobreza energ\u00e9tica no pa\u00eds. O relat\u00f3rio apresenta a diferen\u00e7a de consumo e acesso \u00e0 energia nas diferentes regi\u00f5es entre 1970 e 2000, diferenciando as zonas rurais e urbanas.<\/p>\n<p>Os resultados indicaram que <em>\u201cem 1975, 56,4% da energia el\u00e9trica no setor residencial era consumida pela classe de maior renda (mais de sete sal\u00e1rios m\u00ednimos), que correspondia a 22% dos domic\u00edlios existentes. J\u00e1 a classe de menor renda (menos de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos), que correspondia a 32% do total de domic\u00edlios, consumiu 2,4% da energia el\u00e9trica no setor residencial\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio constatou a grande desigualdade relacionada ao acesso \u00e0 energia ainda no in\u00edcio dos anos 2000: cerca de 20 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o possu\u00edam eletricidade em suas resid\u00eancias.<\/p>\n<p>Com o programa Luz para Todos, criado em 2003, no in\u00edcio do governo Lula, o Brasil garantiu acesso \u00e0 energia para 99% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, acessar n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 preciso que o custo da tarifa permita o uso m\u00ednimo de equipamentos que tragam conforto e que n\u00e3o comprometa parcela significativa do rendimento das fam\u00edlias. Parafraseando Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares, \u201cningu\u00e9m come megawatt\u201d.<\/p>\n<p>Vejamos o que dizem os dados sobre vulnerabilidade energ\u00e9tica:<\/p>\n\n<p>Comparativamente, Norte (0,63) e Nordeste (0,47) exibem, em m\u00e9dia, os maiores n\u00edveis de vulnerabilidade, enquanto Centro-Oeste (0,39) e, principalmente, o Sudeste (0,36) demonstram menor vulnerabilidade. A regi\u00e3o Sul tem m\u00e9dia de 0,45.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise por unidade da federa\u00e7\u00e3o indica que a vulnerabilidade energ\u00e9tica no pa\u00eds \u00e9 fortemente heterog\u00eanea. Os estados de Roraima (0,87), Par\u00e1 (0,79), Amazonas (0,73), Amap\u00e1 (0,71) e Maranh\u00e3o (0,66) lideram o ranking:<\/p>\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o espacial da vulnerabilidade energ\u00e9tica no Brasil refor\u00e7a um achado robusto da literatura: a pobreza energ\u00e9tica \u00e9 um problema de escassez de recursos.<\/p>\n<p>A figura abaixo ilustra o grau de associa\u00e7\u00e3o entre vulnerabilidade energ\u00e9tica e pobreza por munic\u00edpio:<\/p>\n\n<p>Como pode ser observado, a associa\u00e7\u00e3o \u00e9 positiva. Em m\u00e9dia, cidades com maior vulnerabilidade energ\u00e9tica s\u00e3o tamb\u00e9m mais vulner\u00e1veis economicamente.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente a depender de onde se localiza o munic\u00edpio:<\/p>\n\n<p>Nas regi\u00f5es Norte e Nordeste que exibem maiores n\u00edveis de vulnerabilidade energ\u00e9tica, a rela\u00e7\u00e3o com a pobreza \u00e9 mais forte. Por outro lado, no Sul e Centro-Oeste essa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos direta.<\/p>\n<h3>Desafios brasileiros e o enfrentamento \u00e0 pobreza energ\u00e9tica<\/h3>\n<p>Iniciativas como a TSEE s\u00e3o ferramentas potencialmente eficazes para mitigar o impacto da pobreza energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Com a nova proposta, fam\u00edlias atendidas pelo Cad\u00danico, com renda mensal at\u00e9 meio sal\u00e1rio m\u00ednimo per capita, pessoas com defici\u00eancia ou idosos que estejam no Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, ind\u00edgenas e quilombolas do Cad\u00danico que consumam at\u00e9 80 kWh ter\u00e3o gratuidade na conta de energia.<\/p>\n<p>Segundo o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio de Minas e Energia, esse consumo seria suficiente para abastecer, mensalmente, uma resid\u00eancia com 6 l\u00e2mpadas led, um refrigerador, uma TV, um chuveiro el\u00e9trico, um ferro de passar e um carregador de celular. Itens b\u00e1sicos para a subsist\u00eancia, apesar de n\u00e3o considerar o ar condicionado e o aquecedor.<\/p>\n<p>Diante dos desafios impostos, \u00e9 essencial que o Brasil amplie seu leque de solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis e acess\u00edveis. Duas alternativas se mostram particularmente promissoras.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a expans\u00e3o das usinas termel\u00e9tricas movidas a g\u00e1s natural, fonte energ\u00e9tica mais barata e menos poluente do que o diesel, com a vantagem de possibilitar uma opera\u00e7\u00e3o flex\u00edvel conforme a demanda do Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A segunda alternativa \u00e9 o incentivo \u00e0 microgera\u00e7\u00e3o de energia solar em domic\u00edlios de baixa renda. Essa estrat\u00e9gia, j\u00e1 adotada em outros pa\u00edses, permite suprir o consumo residencial b\u00e1sico e pode gerar excedentes para a rede de distribui\u00e7\u00e3o, promovendo descentraliza\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e impacto positivo na renda das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Independentemente do caminho adotado, o enfrentamento da pobreza energ\u00e9tica deve permanecer como prioridade na agenda p\u00fablica, dado seu impacto direto sobre o desenvolvimento social, econ\u00f4mico e ambiental do pa\u00eds.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo federal encaminhou ao Congresso Nacional a MP 1300, que trata sobre a reforma do setor el\u00e9trico. Entre as inova\u00e7\u00f5es institucionais, tem-se a altera\u00e7\u00e3o da Tarifa Social de Energia El\u00e9trica (TSEE) que visa isentar cerca de 60 milh\u00f5es de pessoas do pagamento da conta de luz. 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