{"id":13987,"date":"2025-09-01T12:28:28","date_gmt":"2025-09-01T15:28:28","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/01\/do-consenso-a-discordia-como-a-pauta-ambiental-virou-disputa-politica-no-brasil\/"},"modified":"2025-09-01T12:28:28","modified_gmt":"2025-09-01T15:28:28","slug":"do-consenso-a-discordia-como-a-pauta-ambiental-virou-disputa-politica-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/09\/01\/do-consenso-a-discordia-como-a-pauta-ambiental-virou-disputa-politica-no-brasil\/","title":{"rendered":"Do consenso \u00e0 disc\u00f3rdia: como a pauta ambiental virou disputa pol\u00edtica no Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, os brasileiros pareceram bastante alinhados quando o tema era a prote\u00e7\u00e3o ambiental. De Norte a Sul, o apoio \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o soava quase consensual, ao menos nas pesquisas. Mas esse cen\u00e1rio est\u00e1 mudando. Uma nova pesquisa nacional revela que, em meio \u00e0 crescente polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a pauta ambiental passou a dividir o eleitorado de forma significativa. E mais: quanto mais polarizada a pessoa, maior tende a ser sua intoler\u00e2ncia diante das posi\u00e7\u00f5es opostas nesse debate.<\/p>\n<p>Esse achado n\u00e3o poderia ser mais relevante dado o contexto atual. Com o Brasil ocupando um papel estrat\u00e9gico nos f\u00f3runs globais sobre <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/mudan%C3%A7as%20clim%C3%A1ticas\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a> e enfrentando desafios ambientais urgentes, como os n\u00fameros crescentes de desmatamento da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/amazonia\">Amaz\u00f4nia<\/a>, o desafio de conserva\u00e7\u00e3o dos biomas e trag\u00e9dias como as recentes enchentes no Rio Grande do Sul, compreender como o eleitorado percebe e reage ao tema \u00e9 essencial tanto para quem formula pol\u00edticas p\u00fablicas quanto para quem decide o voto.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<h3>Meio ambiente e pol\u00edtica: a nova arena da disputa brasileira<\/h3>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o meio ambiente deixou de ser um tema marginal para ocupar o centro do debate pol\u00edtico no Brasil. Durante o governo Bolsonaro, a\u00e7\u00f5es que enfraqueceram \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, impulsionaram o desmatamento e estimularam o garimpo intensificaram os conflitos com ambientalistas e povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Em resposta, a campanha de Lula em 2022 colocou a agenda ambiental entre suas prioridades. Ap\u00f3s eleito, o presidente criou o Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas e nomeou <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/Marina%20Silva\">Marina Silva<\/a> para a pasta do Meio Ambiente, sinalizando uma mudan\u00e7a expressiva na condu\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No entanto, essa disputa institucional tamb\u00e9m refletiu na opini\u00e3o p\u00fablica. Ser\u00e1 que o eleitorado incorporou esse embate? Os eleitores de Lula e Bolsonaro pensam de forma distinta sobre as quest\u00f5es ambientais? E, mais importante, essa diverg\u00eancia tornou-se fonte de intoler\u00e2ncia entre os grupos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Para responder a essas perguntas, utilizamos a pesquisa nacional \u201cValores Ambientais e Atitudes sobre a Amaz\u00f4nia\u201d, realizada em 2024, com 1.789 entrevistas realizadas em todos os estados, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) participantes do INCT ReDem em parceria com as organiza\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas Funda\u00e7\u00e3o Melliore e GSCC (Conselho Global de Comunica\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas).<\/p>\n<h3>Como o meio ambiente virou linha de divis\u00e3o no eleitorado<\/h3>\n<p>Os resultados da pesquisa apontam um padr\u00e3o claro: eleitores de Lula e Bolsonaro t\u00eam percep\u00e7\u00f5es distintas sobre quest\u00f5es centrais da agenda ambiental. Essa diferen\u00e7a n\u00e3o se restringe a grandes temas como desmatamento ou aquecimento global, ela se estende a pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas, como o uso de agrot\u00f3xicos, a amplia\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e quilombolas, a autoriza\u00e7\u00e3o do garimpo, o licenciamento ambiental e a privatiza\u00e7\u00e3o do saneamento.<\/p>\n\n<p>Esses resultados indicam que as pautas ambientais assumiram o papel de marcadores identit\u00e1rios no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro, assim como, por exemplo, temas ligados a costumes. A intensifica\u00e7\u00e3o da politiza\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es vai al\u00e9m de prefer\u00eancias abstratas: ela influencia diretamente opini\u00f5es concretas sobre pol\u00edticas.<\/p>\n<p>De forma ainda mais preocupante, observamos um efeito claro da polariza\u00e7\u00e3o na intoler\u00e2ncia pol\u00edtica. Aqui, criamos uma medida em que dividimos os eleitores de Lula e Bolsonaro entre polarizados e n\u00e3o polarizados. Em nossa classifica\u00e7\u00e3o, polarizados s\u00e3o aqueles que gostam de um dos candidatos e ao mesmo rejeitam o candidato advers\u00e1rio em notas que v\u00e3o de 0 a 10.<\/p>\n<p>Consideramos que, para ser um bolsonarista polarizado o eleitor tem que gostar do pol\u00edtico em quest\u00e3o, atribuindo a ele nota acima de 8, ao mesmo tempo atribuir nota entre 0 a 2 para Lula. O mesmo vale para a medida do lulista polarizado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esses indiv\u00edduos precisariam declarar estar satisfeitos ou muito satisfeitos se sua filha se casasse com um eleitor de Bolsonaro, e insatisfeitos ou muito insatisfeitos caso se casasse com um eleitor de Lula, e vice-versa. Os indiv\u00edduos que atenderem a esses crit\u00e9rios foram classificados como polarizados afetivamente em rela\u00e7\u00e3o a um dos dois pol\u00edticos. Caso n\u00e3o, foram classificados como moderados.<\/p>\n\n<p>A figura acima revela como a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alimenta a intoler\u00e2ncia no debate ambiental brasileiro, evidenciando padr\u00f5es distintos entre eleitores de Lula e Bolsonaro. Eleitores lulistas polarizados demonstram maior hostilidade ao agroneg\u00f3cio, enquanto os bolsonaristas polarizados s\u00e3o significativamente mais intolerantes com ambientalistas.<\/p>\n<p>J\u00e1 os n\u00e3o polarizados, em ambos os grupos, apresentam atitudes mais moderadas, com n\u00edveis de intoler\u00e2ncia sensivelmente menores. Esses dados sugerem que a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o apenas aprofunda divis\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m contamina o campo ambiental, transformando o debate num ambiente de confronto entre grupos que deveriam, idealmente, buscar solu\u00e7\u00f5es conjuntas para desafios comuns.<\/p>\n<h3>Por que isso importa?<\/h3>\n<p>Esses resultados trazem implica\u00e7\u00f5es relevantes para a democracia brasileira. Primeiro, a politiza\u00e7\u00e3o do meio ambiente pode dificultar o avan\u00e7o de pol\u00edticas sustent\u00e1veis. Quando assuntos t\u00e9cnicos se transformam em bandeiras ideol\u00f3gicas, o di\u00e1logo entre grupos se torna mais complexo, e os consensos necess\u00e1rios para enfrentar desafios como a crise clim\u00e1tica ficam cada vez mais distantes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a rela\u00e7\u00e3o entre polariza\u00e7\u00e3o afetiva e intoler\u00e2ncia aponta para um risco adicional. Democracias dependem da conviv\u00eancia entre advers\u00e1rios. Quando o oponente se torna um inimigo e sua manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 rejeitada, abre-se espa\u00e7o para a eros\u00e3o dos pilares democr\u00e1ticos. A toler\u00e2ncia funciona como o cimento que mant\u00e9m a democracia unida, e ela parece estar se desgastando.<\/p>\n<p>Mas isso significa que a diverg\u00eancia de opini\u00f5es, por si s\u00f3, \u00e9 um problema? De maneira alguma. Ter perspectivas distintas sobre o meio ambiente \u00e9 leg\u00edtimo e at\u00e9 saud\u00e1vel. O que preocupa \u00e9 quando essas diferen\u00e7as se manifestam acompanhadas de \u00f3dio, preconceito e da desumaniza\u00e7\u00e3o do outro lado.<\/p>\n<h3>O que podemos fazer?<\/h3>\n<p>Antes de tudo, \u00e9 preciso reconhecer que o meio ambiente se tornou uma nova divis\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, e encarar essa realidade com responsabilidade. Pol\u00edticos, comunicadores e formuladores de pol\u00edticas devem evitar transformar essa pauta em um instrumento de conflito cultural. Em vez disso, deveriam buscar construir pontes entre os diferentes grupos, demonstrando que desenvolvimento e preserva\u00e7\u00e3o podem caminhar juntos.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 essencial investir em educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e ambiental, com \u00eanfase na empatia e no di\u00e1logo. Enfrentar a intoler\u00e2ncia demanda mais do que n\u00fameros e dados: requer a disposi\u00e7\u00e3o para ouvir, reconhecer o outro e compreender que ningu\u00e9m resolve a crise clim\u00e1tica sozinho.<\/p>\n<p>Antes de tudo, \u00e9 preciso reconhecer que o meio ambiente se tornou uma nova divis\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, e lidar com essa realidade de forma respons\u00e1vel. Pol\u00edticos, comunicadores e formuladores de pol\u00edticas devem evitar transformar esse tema em arma de conflito cultural. Em vez disso, deveriam buscar construir pontes entre os diversos grupos, mostrando que desenvolvimento e preserva\u00e7\u00e3o podem coexistir.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 fundamental investir em educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e ambiental, priorizando a empatia e o di\u00e1logo. Combater a intoler\u00e2ncia exige mais do que exposi\u00e7\u00e3o de dados e informa\u00e7\u00f5es: requer disposi\u00e7\u00e3o para ouvir, reconhecer o outro e compreender que ningu\u00e9m resolve a crise clim\u00e1tica sozinho.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, os brasileiros pareceram bastante alinhados quando o tema era a prote\u00e7\u00e3o ambiental. De Norte a Sul, o apoio \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o soava quase consensual, ao menos nas pesquisas. Mas esse cen\u00e1rio est\u00e1 mudando. 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