{"id":13764,"date":"2025-08-24T06:00:19","date_gmt":"2025-08-24T09:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/08\/24\/a-escolha-nada-obvia-do-regime-tributario-para-startups\/"},"modified":"2025-08-24T06:00:19","modified_gmt":"2025-08-24T09:00:19","slug":"a-escolha-nada-obvia-do-regime-tributario-para-startups","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/08\/24\/a-escolha-nada-obvia-do-regime-tributario-para-startups\/","title":{"rendered":"A escolha (nada \u00f3bvia) do regime tribut\u00e1rio para startups"},"content":{"rendered":"<p>A constitui\u00e7\u00e3o de uma startup no Brasil navega em um ambiente de dualidades. De um lado, o legislador cria mecanismos, como o Marco Legal das Startups (Lei Complementar 182\/2021) e o Inova Simples (Lei Complementar 167\/2019), buscando fomentar a inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De outro, h\u00e1 complexidade no sistema tribut\u00e1rio. Assim, a escolha do regime de tributa\u00e7\u00e3o que poderia ser uma mera formalidade cont\u00e1bil, trata-se, em verdade, de uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/tributos?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_tributos_q2&amp;utm_id=cta_texto_tributos_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_tributos&amp;utm_term=cta_texto_tributos_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Tributos, plataforma de monitoramento tribut\u00e1rio para empresas e escrit\u00f3rios com decis\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es do Carf, STJ e STF<\/span><\/a><\/h3>\n<h3><strong>Inova Simples no fomento \u00e0 inova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O regime tribut\u00e1rio do Inova Simples foi projetado para permitir a formaliza\u00e7\u00e3o \u00e1gil de modelos de neg\u00f3cio inovadores. Sua premissa \u00e9 clara: um CNPJ r\u00e1pido, de baixo custo, para uma opera\u00e7\u00e3o em fase \u201cexperimental\u201d.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros oficiais, no entanto, podem gerar um debate sobre a efetividade. Dados disponibilizados pela Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC) indicam que, at\u00e9 o final de 2023, o pa\u00eds contava com 2.563 empresas ativas no Inova Simples<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a>. Embora demonstre alguma tra\u00e7\u00e3o e ainda n\u00e3o tenham sido disponibilizadas as estimativas relativas \u00e0 2024, o n\u00famero j\u00e1 se mostrava t\u00edmido frente ao universo de startups em atividade e em compara\u00e7\u00e3o aos anos anteriores.<\/p>\n<p>Mas, afinal, a baixa ades\u00e3o das startups ao Inova Simples seria fruto de desconhecimento ou da limita\u00e7\u00e3o imposta pelo teto de faturamento de R$81mil anuais, que torna o regime um est\u00e1gio excessivamente curto para neg\u00f3cios com qualquer grau de escala? Acredito que a justificativa seja uma conjuga\u00e7\u00e3o de ambas as situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>O paradoxo do Simples Nacional para startups<\/h3>\n<p>Ao esgotar o teto do Inova Simples (R$ 81 mil), a transi\u00e7\u00e3o para o Simples Nacional \u00e9 frequentemente vista como o passo natural da startup. Contudo, para uma startup \u2014 especialmente as com planos de capta\u00e7\u00e3o de investimento \u2014 essa escolha pode ser uma armadilha.<\/p>\n<p>Uma das principais controv\u00e9rsias nasce da complexa regra sobre os cr\u00e9ditos de PIS e Cofins. A Lei Complementar 123\/2006, em seu artigo 23<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn2\">[2]<\/a>, veda de forma geral que empresas do Simples Nacional transfiram cr\u00e9ditos. Contudo, uma interpreta\u00e7\u00e3o posterior da Receita Federal (Ato Declarat\u00f3rio Interpretativo 15\/2007) permite que um cliente no regime de Lucro Real se credite, mas com uma condi\u00e7\u00e3o crucial: a aquisi\u00e7\u00e3o deve ser classificada como insumo para sua pr\u00f3pria atividade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o regime tributa o faturamento bruto e n\u00e3o o lucro. Portanto, mesmo que n\u00e3o haja restri\u00e7\u00e3o advinda do objeto social, condi\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios, porte da empresa e natureza jur\u00eddica, em um modelo de neg\u00f3cio que reinveste em crescimento e\/ou opera com preju\u00edzo nos primeiros anos, a startup acaba sendo penalizada em detrimento da facilidade cont\u00e1bil.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, por exemplo, o Lucro Real serviria como uma ferramenta estrat\u00e9gica. Ao tributar o resultado l\u00edquido, ele se alinha perfeitamente \u00e0 jornada de uma startup que reinveste todo o seu caixa em prol do crescimento.<\/p>\n<h3>Complexidade cont\u00e1bil como vantagem tribut\u00e1ria estrat\u00e9gica<\/h3>\n<p>Para ilustrar que a escolha do regime tribut\u00e1rio para startups n\u00e3o \u00e9 algo \u00f3bvio e imediato, vale analisar (ainda que em termos gerais) a Pipefy \u2013 unic\u00f3rnio curitibano constitu\u00eddo em 2014 e que, por sua natureza, exemplifica a l\u00f3gica de startups que nunca optaram pelo Simples Nacional.<\/p>\n<p>A Pipefy oferece uma plataforma global de software como servi\u00e7o (SaaS) que permite a automa\u00e7\u00e3o de processos sem a necessidade de programa\u00e7\u00e3o. Seus clientes s\u00e3o, majoritariamente, empresas de m\u00e9dio e grande porte.<\/p>\n<p>Ainda que sua atividade de software fosse legalmente permitida no Simples Nacional, a escolha seria estrategicamente desastrosa, j\u00e1 que para a startup competir globalmente e atrair grandes clientes empresariais exige-se, desde o in\u00edcio, uma an\u00e1lise tribut\u00e1ria atrelada ao modelo de crescimento, baseado em altos investimentos em tecnologia e expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Em casos como esses, \u00e9 comum verificar preju\u00edzo nos primeiros anos de atua\u00e7\u00e3o. \u00c0 vista disso, o Lucro Real poderia ser o regime potencialmente mais vantajoso. Contudo, passando a obter ganhos, importa realizar an\u00e1lise detalhada, comparando os custos e investimentos com a pr\u00f3pria margem de lucratividade da startup (e futuro unic\u00f3rnio, tal como no caso da Pipefy).<\/p>\n<p>Portanto, a recomenda\u00e7\u00e3o pelo Simples Nacional, por sua aparente facilidade operacional, pode ser vantajosa para a rotina da cont\u00e1bil, mas, na maior parte das vezes, \u00e9 prejudicial ao crescimento estrat\u00e9gico da startup.<\/p>\n<h3>Novo contexto com a reforma tribut\u00e1ria<\/h3>\n<p>A reforma tribut\u00e1ria, advinda da Emenda Constitucional 132\/2023, aprofunda a complexidade para as empresas do Simples Nacional. A promessa de resolver o problema do cr\u00e9dito de PIS\/Cofins com o novo IVA Dual (IBS e CBS) n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, mas sim um novo dilema estrat\u00e9gico \u00e0s empresas.<\/p>\n<p>A Lei Complementar 214\/2025, que regulamenta o novo sistema, instituiu uma bifurca\u00e7\u00e3o de caminhos para as empresas optantes pelo Simples Nacional, criando duas possibilidades:<\/p>\n<p><strong>1) Apura\u00e7\u00e3o unificada pelo Simples Nacional<\/strong><\/p>\n<p>A empresa pode optar por continuar recolhendo seus tributos de forma unificada no Documento de Arrecada\u00e7\u00e3o do Simples Nacional (DAS).<\/p>\n<p>Neste caso, para n\u00e3o quebrar a cadeia n\u00e3o-cumulativa do novo imposto, o art. 47 da LC 214\/2025<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn3\">[3]<\/a> estabelece no \u00a79\u00ba, inciso II que o adquirente da mercadoria ou servi\u00e7o (o cliente da startup) ter\u00e1 direito \u201c<em>a apropria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos do IBS e da CBS, correspondentes aos valores desses tributos devidos por meio do Simples Nacional<\/em>\u201d (sic).<\/p>\n<p>Sendo assim, a empresa optante pela tributa\u00e7\u00e3o unificada, n\u00e3o aproveita cr\u00e9ditos de CBS e IBS em suas aquisi\u00e7\u00f5es, somente o posterior adquirente dos seus produtos ou servi\u00e7os, mas de modo limitado ao montante apurado via Simples Nacional.<\/p>\n<p><strong>2) Op\u00e7\u00e3o de apura\u00e7\u00e3o da CBS e do IBS pelo regime geral<\/strong><\/p>\n<p>Alternativamente, o art. 21, \u00a7 1\u00ba da LC 214\/2025<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn4\">[4]<\/a>, permite que a empresa do Simples Nacional opte por apurar o IBS e a CBS pelo regime geral de d\u00e9bitos e cr\u00e9ditos, enquanto mant\u00e9m os demais impostos (IRPJ, CSLL e CPP) na sistem\u00e1tica unificada.<\/p>\n<p>A vantagem \u00e9 clara: a startup passa a aproveitar (na aquisi\u00e7\u00e3o de insumos) e a gerar o cr\u00e9dito integral do imposto ao adquirente. Tal possibilidade elimina a limita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito descrita no item anterior. O contraponto \u00e9 a perda da simplicidade, pois o neg\u00f3cio ter\u00e1 que gerenciar a complexa apura\u00e7\u00e3o do IVA-dual e suas novas obriga\u00e7\u00f5es acess\u00f3rias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas op\u00e7\u00f5es, a LC 214\/2025 ainda introduz impactos operacionais relevantes, como a necessidade de adequa\u00e7\u00e3o ao sistema de pagamento dividido do imposto (split payment) e a amplia\u00e7\u00e3o do conceito de receita bruta, que pode afetar o enquadramento no regime.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/cadastro-em-newsletter-curadoria-jota-pro-tributos\">Receba de gra\u00e7a todas as sextas-feiras um resumo da semana tribut\u00e1ria no seu email<\/a><\/h3>\n<p>Diante dos apontamentos acima, uma conclus\u00e3o \u00e9 fato.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o regime do Simples Nacional \u2013 que resolveria a trava de faturamento do Inova Simples e, na maioria das vezes \u00e9 escolhido por simplicidade cont\u00e1bil \u2013 pode se tornar mais complexo, n\u00e3o mais servindo de justificativa para deixar de realizar um detalhado planejamento tribut\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nestes moldes, assim como n\u00e3o se recomenda a escolha do regime tribut\u00e1rio por facilidade cont\u00e1bil, n\u00e3o h\u00e1 fundamento l\u00f3gico para exigir que tal escolha seja procedida no ato do registro do CNPJ.<\/p>\n<p>O planejamento tribut\u00e1rio, para ser efetivo, precisa caminhar em conjunto com o planejamento estrat\u00e9gico da empresa e isso envolve uma an\u00e1lise detalhada, considerando n\u00e3o somente a redu\u00e7\u00e3o de custo, mas todo o contexto empresarial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/agenciagov.ebc.com.br\/noticias\/202401\/memp-divulga-aumento-de-5-1-de-empresas-abertas-nos-ultimos-quatro-meses-de-2023\">https:\/\/agenciagov.ebc.com.br\/noticias\/202401\/memp-divulga-aumento-de-5-1-de-empresas-abertas-nos-ultimos-quatro-meses-de-2023<\/a>. Acesso em 29\/07\/2025<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref2\">[2]<\/a> art. 23.\u00a0 As microempresas e as empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional n\u00e3o far\u00e3o jus \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o nem transferir\u00e3o cr\u00e9ditos relativos a impostos ou contribui\u00e7\u00f5es abrangidos pelo Simples Nacional.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Art. 47.<strong>\u00a0<\/strong>O contribuinte sujeito ao regime regular poder\u00e1 apropriar cr\u00e9ditos do IBS e da CBS quando ocorrer a extin\u00e7\u00e3o por qualquer das modalidades previstas no art. 27 dos d\u00e9bitos relativos \u00e0s opera\u00e7\u00f5es em que seja adquirente, excetuadas exclusivamente aquelas consideradas de uso ou consumo pessoal, nos termos do art. 57 desta Lei Complementar, e as demais hip\u00f3teses previstas nesta Lei Complementar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Art. 21.<strong>\u00a0<\/strong>\u00c9 contribuinte do IBS e da CBS: \u00a0I- o fornecedor que realizar opera\u00e7\u00f5es: a) no desenvolvimento de atividade econ\u00f4mica; b) de modo habitual ou em volume que caracterize atividade econ\u00f4mica; ou c) de forma profissional, ainda que a profiss\u00e3o n\u00e3o seja regulamentada;<\/p>\n<p>(\u2026). \u00a7 1\u00ba O contribuinte de que trata o\u00a0<em>caput<\/em><strong>\u00a0<\/strong>deste artigo \u00e9 obrigado a se inscrever nos cadastros relativos ao IBS e \u00e0 CBS.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constitui\u00e7\u00e3o de uma startup no Brasil navega em um ambiente de dualidades. 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