{"id":13691,"date":"2025-08-21T11:56:43","date_gmt":"2025-08-21T14:56:43","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/08\/21\/licoes-de-raoni-pelo-mundo-em-um-ano-do-documentario-o-chamado-do-cacique\/"},"modified":"2025-08-21T11:56:43","modified_gmt":"2025-08-21T14:56:43","slug":"licoes-de-raoni-pelo-mundo-em-um-ano-do-documentario-o-chamado-do-cacique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/08\/21\/licoes-de-raoni-pelo-mundo-em-um-ano-do-documentario-o-chamado-do-cacique\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de Raoni pelo mundo em um ano do document\u00e1rio \u2018O chamado do cacique\u2019"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEm todo lugar que eu vou, tento conhecer os esp\u00edritos dali e ouvir o que eles t\u00eam a dizer. \u00c9 assim que eu viajo\u201d. Essa foi a explica\u00e7\u00e3o que o cacique Raoni Metuktire me deu, durante um passeio em meio \u00e0 turn\u00ea de exibi\u00e7\u00e3o do minidocument\u00e1rio <em>O chamado do cacique: Heran\u00e7a, terra e futuro<\/em>, produzido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia).<\/p>\n<p>O que parecia um olhar distra\u00eddo do chefe dos Meb\u00eang\u00f4kre (Kayap\u00f3) era, na verdade, seu processo de imers\u00e3o no ambiente que nos encontr\u00e1vamos. N\u00e3o era s\u00f3 uma climatiza\u00e7\u00e3o a um local diferente, que muitas vezes ele j\u00e1 conhecia, mas tamb\u00e9m no momento em que est\u00e1vamos ali. A meu ver, isso se provou um grande poder de ajuste de presen\u00e7a do chefe. N\u00e3o lembro de ter visto Raoni repetir discursos, ele sempre encontra palavras que ressoam com cada p\u00fablico.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Em abril de 2024, iniciamos um ciclo de exibi\u00e7\u00f5es do filme lan\u00e7ado na Caixa Cultural, durante o Acampamento Terra Livre. Raoni n\u00e3o p\u00f4de comparecer por motivos de sa\u00fade, mas foi representado por seus netos Beptuk e Mayal\u00fa, ao lado da ministra dos Povos Ind\u00edgenas, S\u00f4nia Guajajara. A aus\u00eancia do cacique destacou ainda mais sua for\u00e7a de unir gera\u00e7\u00f5es. \u201cQuando eu era menina, ele segurou minha m\u00e3o e disse: \u2018vamos para luta\u2019. Se estou aqui hoje, \u00e9 porque ele me estendeu a m\u00e3o\u201d, lembrou Mayal\u00fa, hoje lideran\u00e7a feminina importante.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, durante o Festival Semeia, Raoni se juntou ao grupo. Entre pedidos de fotos e palavras com o \u201ccacique-que-subiu-a-rampa\u201d junto do presidente Lula, ele lembrava das hist\u00f3rias dos ind\u00edgenas que habitavam a Ba\u00eda da Guanabara antes da coloniza\u00e7\u00e3o. Dizia que, embora o povo n\u00e3o estivesse mais ali, os esp\u00edritos permaneciam e ainda cuidavam da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse foi o tom que o chefe trouxe para a Cidade Maravilhosa: o que est\u00e1 no passado j\u00e1 est\u00e1 feito e temos que olhar para frente e n\u00e3o cometer os mesmos erros.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitos anos, nossos ancestrais [dos homens brancos e dos povos ind\u00edgenas] se enfrentaram no Brasil. Teve guerra, matan\u00e7a, viol\u00eancia\u201d, disse Raoni com seus gestos assertivos, t\u00edpicos do povo Kayap\u00f3. \u201cDeixemos o passado para tr\u00e1s e pensemos no futuro, pois temos um objetivo em comum\u201d. E esse objetivo \u00e9 em prol da vida, com \u00e1gua limpa para todos, equil\u00edbrio clim\u00e1tico e participa\u00e7\u00e3o de todos. \u201cNossa l\u00edngua, tradi\u00e7\u00e3o e modo de viver s\u00e3o importantes para que a floresta continue em p\u00e9\u201d, completava o chefe.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de suas palavras tamb\u00e9m inspira os mais jovens. Beptuk recorda: \u201cDesde os meus 10 anos escuto ele dizer: n\u00e3o briguem entre voc\u00eas, sen\u00e3o v\u00e3o se enfraquecer. Ele n\u00e3o pensa apenas nos povos ind\u00edgenas, mas em todos no planeta\u201d.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, durante uma exibi\u00e7\u00e3o na Universidade de Stanford, tive a chance de ter um conv\u00edvio maior e observ\u00e1-lo de perto. Raoni me explicou que, al\u00e9m de cacique, tamb\u00e9m \u00e9 um poderoso xam\u00e3 de seu povo, papel que exige d\u00e9cadas de comunh\u00e3o com a terra. O que leva d\u00e9cadas para se masterizar e at\u00e9 hoje se considera um aprendiz. Foi durante um passeio para ver as sequoias que ele me explicou sua maneira de viajar e escutar esp\u00edritos de outros lugares. Por diversas vezes, referiu-se aos da Calif\u00f3rnia como antigos e s\u00e1bios.<\/p>\n<p>Ainda levo comigo uma certa intera\u00e7\u00e3o que me despertou grande fasc\u00ednio. Uma pessoa que conhecemos durante a visita pediu para que eu traduzisse o que ela queria dizer ao chefe. Encurtando um pouco a hist\u00f3ria, ela disse que pertencia a um povo origin\u00e1rio do Ir\u00e3, mas que seu povo h\u00e1 muito tempo vivia disperso, uma vez que foram expulsos do pa\u00eds, resumindo-se a alguns encontros anuais para exercer sua cultura.<\/p>\n<p>Raoni ouviu com muita aten\u00e7\u00e3o. O que ser\u00e1 que ele falaria sobre um povo do outro lado do mundo de um pa\u00eds que certamente teve pouca intera\u00e7\u00e3o? Com muita calma disse: \u201cum povo sem terra \u00e9 um povo sem corpo. Um povo sem cultura \u00e9 um povo sem alma. Voc\u00eas podem ter perdido seu corpo, mas enquanto sua cultura estiver viva, eles nunca poder\u00e3o mat\u00e1-los. O corpo pode voltar. A alma n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A iraniana ficou estarrecida. Expressou que nunca se sentiu t\u00e3o validada desde que chegou em um pa\u00eds que n\u00e3o era o seu. Disse que temia n\u00e3o poder ver seu povo novamente, por estar doente. H\u00e1 alguns meses, havia descoberto um c\u00e2ncer. Antes mesmo de eu terminar de traduzir, Raoni rapidamente colocou a m\u00e3o nas costas de sua nova amiga e perguntou \u201caqui?\u201d. Ela, j\u00e1 se emocionando, respondeu que sim, que era um c\u00e2ncer de pulm\u00e3o.<\/p>\n<p>Mantendo as m\u00e3os em suas costas, Raoni fechou os olhos, encostou sua testa na dela e come\u00e7ou um canto de reza. Fui pego de guarda baixa. Me dei conta que, de alguma forma, estava participando de algo muito forte. Quando ela arrepiava, Raoni tamb\u00e9m arrepiava. E eu junto. Ela j\u00e1 solu\u00e7ava e vi que Raoni tamb\u00e9m derramava l\u00e1grimas. Sem nem ter notado, eu j\u00e1 estava com a cara molhada.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um ritual que demorou muito, mas me pego pensando nessa intera\u00e7\u00e3o frequentemente. Testemunhar o cruzamento de hist\u00f3rias t\u00e3o distantes, mas ao mesmo tempo t\u00e3o familiares, foi muito humano. Duas pessoas que se enxergavam por inteiro e entendiam que n\u00e3o estavam sozinhas. Como j\u00e1 disse, Raoni ensina pelo exemplo, e seu maior ensinamento \u00e9 escutar. Aquela escuta verdadeira, sens\u00edvel, que atravessa l\u00ednguas e fronteiras. Espero um dia masterizar essa conex\u00e3o como faz Raoni.<\/p>\n<p>Durante o evento em Stanford, Raoni decidiu tomar outro rumo em suas falas. Come\u00e7ou dizendo que nossas divis\u00f5es no mapa s\u00e3o meras ilus\u00f5es e que as for\u00e7as naturais n\u00e3o conhecem fronteiras e, por isso, ele tamb\u00e9m n\u00e3o. \u201cVivemos num mundo s\u00f3, respiramos o mesmo ar, bebemos da mesma \u00e1gua. Precisamos estar unidos nesta luta para acabar com os problemas que preocupam os esp\u00edritos da floresta: a destrui\u00e7\u00e3o da natureza e o futuro da vida nesta terra. Precisamos caminhar juntos por um mundo onde possamos viver em harmonia\u201d, ressaltou o cacique.<\/p>\n<p>Para uma plateia repleta de cientistas, professores, acad\u00eamicos e alunos de ci\u00eancia, Raoni resolveu falar da cosmovis\u00e3o Kayap\u00f3. Contou de uma vis\u00e3o, ap\u00f3s perguntar para os esp\u00edritos qual era sua miss\u00e3o na Terra. Um grande p\u00e1ssaro preto o levou a uma imensa \u00e1rvore repleta de frutos. Notou que um deles era o nosso planeta e entendeu que fazemos parte de algo maior. Raoni pediu uma pena ao esp\u00edrito para provar o que via. Por\u00e9m, o s\u00e1bio esp\u00edrito tinha mais uma li\u00e7\u00e3o: retirar algo do lugar que cumpre seu papel \u00e9 causar desequil\u00edbrio. Uma simples pena pode significar a morte de um mundo. Por isso, Raoni traz essa mensagem.<\/p>\n<p>Foi incr\u00edvel ver cada interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira: ec\u00f3logos viram rela\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies e ambientes, antrop\u00f3logos, arqu\u00e9tipos simb\u00f3licos. Outros lembraram da Yggdrasil, a \u00e1rvore da vida n\u00f3rdica. Mas todos chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o: o futuro depende das escolhas que fazemos agora e elas devem vir com respeito e consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde sua estreia, <em>O chamado do cacique<\/em> foi exibido em eventos nacionais e internacionais: no UK-Brazil Forum; na London Climate Action Week; no Festival de Garopaba; e na 10\u00aa FESTiFRANCE, onde ganhou como melhor document\u00e1rio. Mas nenhum pr\u00eamio se compara ao que se ganha ao caminhar com Raoni. Seja em Stanford, no Acampamento Terra Livre ou em Paris, o que fica \u00e9 a consci\u00eancia viva de que toda exist\u00eancia tem voz.<\/p>\n<p><em>O chamado do cacique<\/em> \u00e9 tamb\u00e9m um chamado para n\u00f3s. Sabemos da for\u00e7a das vozes ind\u00edgenas, mas temos coragem de escut\u00e1-las de verdade? Em tempos de urg\u00eancia clim\u00e1tica e desintegra\u00e7\u00e3o humana, a sabedoria de Raoni \u00e9 um lembrete vital. Ou aprendemos a escutar a Terra e uns aos outros, ou perderemos ambos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEm todo lugar que eu vou, tento conhecer os esp\u00edritos dali e ouvir o que eles t\u00eam a dizer. \u00c9 assim que eu viajo\u201d. 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