{"id":12824,"date":"2025-07-20T05:48:57","date_gmt":"2025-07-20T08:48:57","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/20\/existe-vida-pensante-fora-do-sudeste\/"},"modified":"2025-07-20T05:48:57","modified_gmt":"2025-07-20T08:48:57","slug":"existe-vida-pensante-fora-do-sudeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/20\/existe-vida-pensante-fora-do-sudeste\/","title":{"rendered":"Existe vida pensante fora do Sudeste?"},"content":{"rendered":"<p>T\u00edtulo pol\u00eamico, sabemos. Mas, como diz o ditado popular, algu\u00e9m precisa colocar o dedo na ferida. O Brasil \u00e9 profundamente desigual. Dados do IBGE comprovam que, da rede de esgoto ao IDH, passando pela alfabetiza\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 internet, direitos b\u00e1sicos n\u00e3o foram distribu\u00eddos com a mesma generosidade que a brisa litor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Menos evidente, por\u00e9m igualmente alarmante, \u00e9 o abismo na produ\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o p\u00fablica. Veja que curioso: quanto mais pr\u00f3xima da linha do Equador est\u00e1 uma regi\u00e3o, menores s\u00e3o as chances de algu\u00e9m ter voz nas colunas de jornais de alcance nacional. Como se houvesse um filtro invis\u00edvel que autoriza apenas as ideias com sotaque paulista ou, no m\u00e1ximo, carioca.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Para investigar essa hip\u00f3tese, a Gauss Anal\u00edtica, empresa sediada no Recife, mapeou a origem geogr\u00e1fica de 111 colunistas dos maiores conglomerados de m\u00eddia do pa\u00eds. Resultado: 79,28% deles viveram, ou precisaram viver, na regi\u00e3o Sudeste para construir suas trajet\u00f3rias.<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia? Talvez. Consequ\u00eancia de concentra\u00e7\u00e3o populacional e de PIB? Em parte. Mas o problema \u00e9 circular: o PIB atrai gente, que atrai m\u00eddia, que atrai mais PIB, como num ciclo vicioso com sede na avenida Paulista. A concentra\u00e7\u00e3o beira o ins\u00f3lito.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro, com apenas 7,91% da popula\u00e7\u00e3o, abriga 31 colunistas, ou seja, quase quatro vezes mais do que seria esperado demograficamente. No Distrito Federal, o fen\u00f4meno \u00e9 ainda mais agudo: com 1,39% da popula\u00e7\u00e3o, emplaca 10 colunistas. A raz\u00e3o relativa \u00e9 de 6,49. Se Bras\u00edlia fosse uma startup de comentaristas, j\u00e1 teria virado unic\u00f3rnio. O Gr\u00e1fico 1 mostra a desigualdade na representa\u00e7\u00e3o de colunistas entre as regi\u00f5es do pa\u00eds:<\/p>\n\n<p>A linha pontilhada delimita a situa\u00e7\u00e3o de total proporcionalidade entre o percentual de colunistas e o peso populacional. Se a raz\u00e3o \u00e9 maior do que 1, a regi\u00e3o tem mais colunistas que o esperado dado o seu tamanho populacional.<\/p>\n<p>Esse desequil\u00edbrio afeta diretamente o modo como o Brasil \u00e9 narrado. N\u00e3o raro, o pa\u00eds \u00e9 interpretado a partir das lentes do Sudeste, como se S\u00e3o Paulo fosse uma esp\u00e9cie de lupa moral e intelectual da na\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica do Nordeste vira \u201cex\u00f3tica\u201d, a cultura do Norte \u00e9 invisibilizada e o Centro-Oeste s\u00f3 aparece quando Bras\u00edlia entra em crise (o que, sejamos honestos, \u00e9 frequente).<\/p>\n<p>Na academia, o padr\u00e3o se repete. O Sudeste costuma ser tratado como o Brasil em miniatura. Esse olhar enviesado, que chamamos aqui de \u201csudestecentrismo\u201d, empobrece o debate e transforma regi\u00f5es inteiras em rodap\u00e9s do Brasil. Para dimensionar a desigualdade, calculamos tamb\u00e9m o \u00edndice de Gini da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos colunistas: 0,566. Na literatura internacional, valores acima de 0,5 j\u00e1 sinalizam risco de instabilidade social.<\/p>\n<p>No nosso caso, o problema \u00e9 de instabilidade cognitiva nacional: o que se pensa sobre o Brasil \u00e9, em grande medida, decidido por uma minoria geogr\u00e1fica. Se a opini\u00e3o p\u00fablica fosse uma playlist, ela estaria no modo aleat\u00f3rio mas travado nas faixas de S\u00e3o Paulo e Rio.<\/p>\n<p>Para o leitor n\u00e3o achar que \u00e9 picuinha da nossa parte, reproduzimos esses c\u00e1lculos tendo agora como par\u00e2metro a quantidade de programas e cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil, conforme estimativas oficiais da <a href=\"https:\/\/sucupira-legado.capes.gov.br\/sucupira\/public\/consultas\/coleta\/programa\/quantitativos\/quantitativoRegiao.jsf\">Capes<\/a>. O resultado se repete: a vida pensante parece habitar quase exclusivamente a regi\u00e3o Sudeste. Vejamos o Gr\u00e1fico 2:<\/p>\n\n<p>O Sudeste tem muito mais colunistas do que o esperado dada a oferta de programas e cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. A raz\u00e3o entre a porcentagem de colunistas e a de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1,88, e entre colunistas e cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1,70 \u2014 evidenciando uma super-representa\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o. O impacto mais evidente dessa conjuntura de elevada desigualdade \u00e9 que a opini\u00e3o p\u00fablica nacional se torna ref\u00e9m de um vi\u00e9s regionalista, ou sudestino, gent\u00edlico disseminado como autocr\u00edtica pelo comediante Greg\u00f3rio Duvivier.<\/p>\n<p>Quem mora em S\u00e3o Paulo ou no Rio de Janeiro, se formar sua opini\u00e3o apenas com base no que \u00e9 disseminado pelas grandes empresas de m\u00eddias, provavelmente vai enxergar o Brasil com antolhos. Uma vez, n\u00e3o faz tanto tempo assim, um primo carioca perguntou se Recife tinha ruas asfaltadas. O que dever\u00edamos dizer a ele?<\/p>\n<p>Para ilustrar a quest\u00e3o, vale contar aqui um epis\u00f3dio que ocorreu durante uma entrevista do ganhador da Palma de Ouro no festival Cannes, o diretor pernambucano Kleber Mendon\u00e7a Filho. O cineasta reagiu rispidamente para esclarecer que seu trabalho n\u00e3o pode ser classificado como cinema regional. E nem mesmo o de seus colegas, como o tamb\u00e9m pernambucano Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata, neste mesmo ano, no Festival de Berlim.<\/p>\n<p>O reflexo disso \u00e9 percept\u00edvel na constru\u00e7\u00e3o da agenda p\u00fablica. Temas estruturantes de outras regi\u00f5es tendem a desaparecer ou, quando aparecem, s\u00e3o tratados como curiosidades. A menor taxa de mortalidade por Covid-19 no Brasil foi registrada no Maranh\u00e3o. N\u00e3o foi manchete nos grandes jornais. Mas rendeu, \u00e9 verdade, uma bela mat\u00e9ria na revista Piau\u00ed e uma r\u00e9plica ainda mais curiosa no Vermelho. Imaginem se o feito fosse em Florian\u00f3polis ou Campinas: haveria dossi\u00ea, document\u00e1rio e talvez um TED Talks.<\/p>\n<p>Esse filtro regional molda tamb\u00e9m a visibilidade das universidades. Enquanto USP, UFRJ e PUC-SP ocupam espa\u00e7o cativo no debate, institui\u00e7\u00f5es do Norte e Nordeste mal recebem men\u00e7\u00f5es honrosas. Parece detalhe, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de avalia\u00e7\u00e3o por impacto, \u201cquem n\u00e3o \u00e9 visto n\u00e3o \u00e9 lembrado\u201d. E quem n\u00e3o \u00e9 lembrado n\u00e3o recebe fomento. Pior do que ser invisibilizado \u00e9 ter sua realidade julgada por quem n\u00e3o a conhece. Quando pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o desenhadas a partir de experi\u00eancias concentradas em poucas metr\u00f3poles, o risco \u00e9 alto: o Brasil profundo vira um eco distante. A diversidade do pa\u00eds exige mais do que vozes ecoando dos mesmos CEPs.<\/p>\n<p>Mudar esse quadro pode parecer quixotesco. Mas lembramos que, h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, protagonistas negros em novelas e mulheres \u00e0 frente dos jornais eram exce\u00e7\u00f5es. O tempo anda, ainda que mancando, e a hist\u00f3ria mostra que alguns trope\u00e7os levam a avan\u00e7os. \u00c9 preciso, portanto, escancarar o problema e furar a bolha sudestina que nos impede de enxergar o Brasil inteiro com os dois olhos abertos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00edtulo pol\u00eamico, sabemos. Mas, como diz o ditado popular, algu\u00e9m precisa colocar o dedo na ferida. O Brasil \u00e9 profundamente desigual. Dados do IBGE comprovam que, da rede de esgoto ao IDH, passando pela alfabetiza\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 internet, direitos b\u00e1sicos n\u00e3o foram distribu\u00eddos com a mesma generosidade que a brisa litor\u00e2nea. Menos evidente, por\u00e9m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12824"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12824"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12824\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}