{"id":12645,"date":"2025-07-13T06:01:56","date_gmt":"2025-07-13T09:01:56","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/13\/o-brasil-que-congela-o-salario-minimo-e-protege-desoneracoes\/"},"modified":"2025-07-13T06:01:56","modified_gmt":"2025-07-13T09:01:56","slug":"o-brasil-que-congela-o-salario-minimo-e-protege-desoneracoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/13\/o-brasil-que-congela-o-salario-minimo-e-protege-desoneracoes\/","title":{"rendered":"O Brasil que congela o sal\u00e1rio m\u00ednimo e protege desonera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><span>Em um pa\u00eds marcado por extrema desigualdade, como \u00e9 o caso do Brasil, o sal\u00e1rio m\u00ednimo cumpre um papel crucial, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto social. De acordo com o IBGE, cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, incluindo aposentados, pensionistas e trabalhadores de baixa renda, depende diretamente dele.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Dada sua import\u00e2ncia, nos \u00faltimos anos, o governo havia retomado a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o real do m\u00ednimo, conectando seu reajuste ao crescimento do PIB. Contudo, em abril deste ano, o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/congresso-nacional\">Congresso Nacional<\/a>, sob press\u00e3o do setor financeiro privado, que \u00e9 apoiado por uma coaliz\u00e3o parlamentar fiscalista, retirou do <\/span><span>Projeto de Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias<\/span><span> a previs\u00e3o de aumento real, restringindo o reajuste \u00e0 reposi\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p><span>Mas qual a justificativa dos parlamentares para essa mudan\u00e7a? Conten\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos. Em sua justificativa, os parlamentares partem da estimativa de que a cada R$ 1 de aumento no sal\u00e1rio m\u00ednimo existir\u00e1 um impacto rec\u00edproco sobre os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios e assistenciais. No entanto, essa l\u00f3gica desconsidera que o sal\u00e1rio m\u00ednimo tamb\u00e9m \u00e9 um dos principais indutores de crescimento econ\u00f4mico via consumo, al\u00e9m de funcionar como mecanismo redistributivo direto em uma sociedade marcada por extrema desigualdade e pobreza, como \u00e9 a brasileira.<\/span><\/p>\n<p><span>Na contram\u00e3o do rigor aplicado ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, o Congresso preservou as desonera\u00e7\u00f5es fiscais, que de acordo com as proje\u00e7\u00f5es da Receita Federal, podem chegar a R$ 544,5 bilh\u00f5es (4,8% do PIB) em 2025, ainda que algumas estimativas, como as do jornal Valor Econ\u00f4mico, indiquem que esse valor pode atingir R$ 800 bilh\u00f5es.\u00a0 <\/span><\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, o valor de R$ 544,5 bilh\u00f5es corresponde a aproximadamente 2,2 vezes o or\u00e7amento da sa\u00fade (R$\u202f 245 bilh\u00f5es) e a 2,4 vezes<span> o or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o (R$ 226 bilh\u00f5es), ambos de 2025. Al\u00e9m de injustos do ponto de vista tribut\u00e1rio e social, esses incentivos s\u00e3o pouco transparentes, beneficiam grandes empresas e setores que n\u00e3o geram contrapartidas econ\u00f4micas claras, como gera\u00e7\u00e3o de empregos ou inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. <\/span><\/p>\n<p><span>Soma-se a isso o fato de que nenhuma apura\u00e7\u00e3o dos efeitos dos incentivos na economia nacional \u00e9 realizada, nem pelo Estado nem pelos \u00f3rg\u00e3os de controle, impossibilitando a verifica\u00e7\u00e3o de sua efetividade no desenvolvimento da economia e perpetuando benef\u00edcios improdutivos \u00e0 empresas ineficientes. <\/span><\/p>\n<p><span>Apesar de alertas do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/tcu\">TCU<\/a>), que destaca a inefici\u00eancia de boa parte desses benef\u00edcios, h\u00e1 forte resist\u00eancia pol\u00edtica no Congresso Nacional para rev\u00ea-los. A for\u00e7a dos <\/span><span>lobbies<\/span><span> empresariais e o oportunismo de setores que defendem a \u201cmanuten\u00e7\u00e3o da competitividade\u201d se sobrep\u00f5em ao debate sobre justi\u00e7a tribut\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span>O resultado \u00e9 um or\u00e7amento que penaliza os mais pobres com conten\u00e7\u00e3o salarial, mas preserva privil\u00e9gios fiscais para setores que, apesar de defenderem a efici\u00eancia econ\u00f4mica, se mostram pouco eficientes sem os referidos benef\u00edcios.<\/span><\/p>\n<p><span>Para al\u00e9m dos valores exorbitantes das desonera\u00e7\u00f5es, a pol\u00edtica monet\u00e1ria, comandada por um Banco Central independente, adiciona outra camada de restri\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento p\u00fablico. A taxa Selic, que atualmente est\u00e1 em 15%, imp\u00f5e um alt\u00edssimo custo \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica brasileira, que j\u00e1 ultrapassa R$ 7 trilh\u00f5es. Estima-se que para cada ponto percentual da Selic, o Tesouro Nacional destine centenas de bilh\u00f5es de reais ao pagamento de juros \u2014 recursos que deixam de ser aplicados em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, infraestrutura ou redistribui\u00e7\u00e3o de renda. <\/span><\/p>\n<p>De acordo com dados do Banco Central, em 2024, o governo pagou R$ 950,4 bilh\u00f5es (8% do PIB) em juros nominais sobre a d\u00edvida p\u00fablica consolidada (abrangendo Uni\u00e3o, estados, munic\u00edpios e estatais). Se tomarmos como refer\u00eancia o d\u00e9ficit prim\u00e1rio do governo em 2025, o gasto com juros foi aproximadamente 1,5 vez maior que o d\u00e9ficit prim\u00e1rio, que foi de R$\u202f 47,6 bilh\u00f5es (0,4% do PIB).<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica monet\u00e1ria beneficia diretamente os detentores de t\u00edtulos da d\u00edvida (em sua maioria bancos e grandes investidores), enquanto reprime o crescimento e o investimento p\u00fablico. A alta taxa de juros desincentiva o cr\u00e9dito, reduz o consumo e limita o crescimento do PIB, o que paradoxalmente tamb\u00e9m freia a arrecada\u00e7\u00e3o de tributos.<\/p>\n<p><span>A combina\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas decis\u00f5es \u2014 conten\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, preserva\u00e7\u00e3o de desonera\u00e7\u00f5es e manuten\u00e7\u00e3o de juros altos \u2014 resulta em uma pol\u00edtica fiscal regressiva. O \u00f4nus do ajuste recai sobre os que dependem de pol\u00edticas p\u00fablicas, enquanto as rendas do capital e os setores economicamente organizados mant\u00eam seus privil\u00e9gios. <\/span><\/p>\n<p><span>No Brasil, de acordo com o relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/www.credit-suisse.com\/about-us\/en\/reports-research\/global-wealth-report.html\">\u201cGlobal Wealth Report 2023\u201d <\/a>do Credit Suisse,<\/span><span> em 2022 o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o concentrava quase 30% da riqueza nacional, enquanto<\/span>, segundo<span>\u00a0o relat\u00f3rio<\/span> <a href=\"https:\/\/wir2022.wid.world\/www-site\/uploads\/2023\/03\/D_FINAL_WIL_COUNTRY_SHEETS_2303.pdf\"><span>\u201cDesigualdade Mundial 2022\u201d<\/span><\/a>, <span>elaborado pelo<\/span> <span>World Inequality Lab<\/span>, <span>os 50% mais pobres concentram apenas 10% da riqueza nacional. <\/span><\/p>\n<p><span>\u00c9 nesse contexto que a pol\u00edtica fiscal deveria atuar para corrigir distor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ampli\u00e1-las. Adicionalmente, o sistema tribut\u00e1rio brasileiro \u00e9 um dos mais injustos do mundo. Mais de 50% da arrecada\u00e7\u00e3o total vem de tributos indiretos \u2014 que incidem sobre o consumo, penalizando, proporcionalmente, os mais pobres. Em contrapartida, a tributa\u00e7\u00e3o sobre a renda e o patrim\u00f4nio continua t\u00edmida e cheia de brechas, respondendo por aproximadamente 20% e 5% da arrecada\u00e7\u00e3o total, respectivamente.<\/span><\/p>\n<p><span>Decis\u00f5es sobre pol\u00edtica fiscal n\u00e3o s\u00e3o apenas decis\u00f5es t\u00e9cnicas \u2014 apesar de os pol\u00edticos e os interessados utilizarem com frequ\u00eancia esse argumento para legitimarem as decis\u00f5es que perpetuam seus privil\u00e9gios \u2014 \u00a0s\u00e3o escolhas pol\u00edticas. A justificativa da austeridade seletiva, aplicada com rigor \u00e0s despesas sociais e a toler\u00e2ncia \u00e0s ren\u00fancias fiscais e ao rentismo, revela o pacto conservador que ainda sustenta as bases do or\u00e7amento p\u00fablico no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span>Comparado a outros pa\u00edses, o Brasil lidera em desonera\u00e7\u00f5es fiscais, superando na\u00e7\u00f5es como Estados Unidos, Alemanha e Jap\u00e3o. Em 2023, enquanto a m\u00e9dia global girava em torno de 2% do PIB, o Brasil gastava mais que o dobro desse percentual. Essa pol\u00edtica reduz drasticamente a capacidade do Estado de investir em \u00e1reas essenciais.<\/span><\/p>\n<p><strong>Desonera\u00e7\u00f5es fiscais em pa\u00edses selecionados<\/strong><\/p>\n<div class=\"jota-article__table j-responsive-table\">\n<p>Pa\u00eds<br \/>\nDesonera\u00e7\u00f5es (% do PIB)<br \/>\nFonte<\/p>\n<p>Brasil<br \/>\n<span>4,8%<\/span><br \/>\n<span>Minist\u00e9rio da Fazenda (2024)<\/span><\/p>\n<p>Estados Unidos<br \/>\n<span>2,5%<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<p>Fran\u00e7a<br \/>\n<span>2,9% (estimado)<\/span><br \/>\n<span>IMF Government Finance Statistics (2023)<\/span><\/p>\n<p>Alemanha<br \/>\n<span>2,5%<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<p>\u00cdndia<br \/>\n<span>1,5%<\/span><br \/>\n<span>IMF Government Finance Statistics (2023)<\/span><\/p>\n<p>China<br \/>\n<span>1%<\/span><br \/>\n<span>IMF Government Finance Statistics (2023)<\/span><\/p>\n<p>Canad\u00e1<br \/>\n<span>2,2%<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<p>Jap\u00e3o<br \/>\n<span>1,8%<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<p>M\u00e9xico<br \/>\n<span>1,7%<\/span><br \/>\n<span>IMF Government Finance Statistics (2023)<\/span><\/p>\n<p>Reino Unido<br \/>\n<span>2%<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<p>It\u00e1lia<br \/>\n<span>2% (estimado)<\/span><br \/>\n<span>OECD Tax Expenditures (2023)<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p><span>Reverter esse quadro exige coragem pol\u00edtica e comprometimento com a justi\u00e7a social. Isso inclui retomar o aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, revisar as desonera\u00e7\u00f5es e implementar uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais equilibrada.<\/span><\/p>\n<p><span>Mais do que discursos de austeridade seletiva, \u00e9 hora de reposicionar o or\u00e7amento p\u00fablico como ferramenta de combate \u00e0s desigualdades e promo\u00e7\u00e3o de um futuro mais justo para todos.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um pa\u00eds marcado por extrema desigualdade, como \u00e9 o caso do Brasil, o sal\u00e1rio m\u00ednimo cumpre um papel crucial, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto social. 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