{"id":12494,"date":"2025-07-06T06:40:33","date_gmt":"2025-07-06T09:40:33","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/06\/brasil-ja-vive-semipresidencialismo-mas-sem-freios-institucionais-claros\/"},"modified":"2025-07-06T06:40:33","modified_gmt":"2025-07-06T09:40:33","slug":"brasil-ja-vive-semipresidencialismo-mas-sem-freios-institucionais-claros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/06\/brasil-ja-vive-semipresidencialismo-mas-sem-freios-institucionais-claros\/","title":{"rendered":"Brasil j\u00e1 vive semipresidencialismo, mas sem freios institucionais claros"},"content":{"rendered":"<h3>Presidencialismo formal, pr\u00e1tica informal<\/h3>\n<p>Constitucionalmente, o Brasil adota um sistema presidencialista. Mas a pr\u00e1tica institucional dos \u00faltimos anos, especialmente desde 2016, tem revelado algo diferente: a emerg\u00eancia de um arranjo h\u00edbrido, sem base normativa clara, no qual o Poder Executivo \u00e9 cada vez mais partilhado \u2013 informalmente \u2013 com o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/congresso-nacional\">Congresso Nacional<\/a> e com o Supremo Tribunal Federal (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stf\">STF<\/a>)<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de um deslocamento de protagonismo pol\u00edtico. O que se observa \u00e9 a eros\u00e3o da l\u00f3gica original do presidencialismo de coaliz\u00e3o, substitu\u00edda por uma forma de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/semipresidencialismo\">semipresidencialismo<\/a> de fato, operado por dentro do sistema sem o devido regramento constitucional.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica perdeu o monop\u00f3lio da iniciativa pol\u00edtica e da execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. O Legislativo se empoderou, mas sem assumir as responsabilidades da governan\u00e7a. E o Judici\u00e1rio \u2013 notadamente o STF \u2013 tornou-se \u00e1rbitro informal das crises e, por vezes, coprotagonista da delibera\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<h3>Da coaliz\u00e3o hegem\u00f4nica \u00e0 coaliz\u00e3o improvisada<\/h3>\n<p><span>Nos anos FHC e Lula (1995-2010), o presidencialismo de coaliz\u00e3o funcionava com alguma previsibilidade. O presidente montava uma base multipartid\u00e1ria est\u00e1vel, controlava a execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria e negociava com o Congresso em torno de emendas, cargos e lideran\u00e7as. <\/span><\/p>\n<p><span>Reformas estruturais e programas sociais robustos foram viabilizados nesse modelo, com o Executivo ditando o ritmo da agenda legislativa. O Legislativo tinha poder, mas operava \u2013 majoritariamente \u2013 como s\u00f3cio minorit\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span>Essa l\u00f3gica come\u00e7ou a ruir a partir do segundo mandato de Dilma Rousseff. Com o desgaste pol\u00edtico das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, a recess\u00e3o econ\u00f4mica e o impacto da Lava Jato, Dilma perdeu sua base congressual e sancionou, em 2015, a <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/emendas\/emc\/emc86.htm\">Emenda Constitucional 86<\/a>, que introduziu as emendas parlamentares impositivas. Foi um gesto desesperado para sobreviver ao processo de impeachment \u2013 e acabou sendo o <\/span>marco inaugural de uma nova era institucional, na qual o Congresso passou a controlar parte significativa do or\u00e7amento, sem depender da vontade presidencial.<\/p>\n<p>O impeachment de Dilma selou essa virada. Foi menos um ju\u00edzo t\u00e9cnico sobre as pedaladas fiscais e mais um voto pol\u00edtico de desconfian\u00e7a. Com isso, o Legislativo passou a perceber que poder de veto e poder de agenda podiam ser exercidos sem custo institucional, invertendo o jogo tradicional do presidencialismo.<\/p>\n<h3>Temer, Bolsonaro e o novo pacto informal<\/h3>\n<p><span>O governo Temer foi o laborat\u00f3rio dessa nova ordem. Sem capital pol\u00edtico pr\u00f3prio, o ent\u00e3o presidente governou como um primeiro-ministro tolerado por uma maioria parlamentar heterog\u00eanea. A sobreviv\u00eancia do governo frente a den\u00fancias criminais foi garantida por uma C\u00e2mara j\u00e1 empoderada, que aprovou reformas como o teto de gastos e ampliou o or\u00e7amento impositivo.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas foi com Bolsonaro que o modelo atingiu seu auge (ou abismo, dependendo do ponto de vista). Eleito com discurso antipol\u00edtico e promessas de romper com o \u201ctoma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1\u201d, Bolsonaro tentou governar sem coaliz\u00e3o. O resultado foi o isolamento e o colapso da coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <\/span><\/p>\n<p>A partir de 2020, pressionado por pedidos de impeachment, cedeu ao centr\u00e3o: entregou minist\u00e9rios, liberou emendas e abandonou qualquer pretens\u00e3o program\u00e1tica. O Congresso, por sua vez, criou e refinou as emendas de relator (RP9) \u2013 o chamado <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/orcamento-secreto\">or\u00e7amento secreto<\/a> \u2013, que concentrou bilh\u00f5es em redutos eleitorais de aliados, muitas vezes sem qualquer transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia foi a captura do or\u00e7amento discricion\u00e1rio da Uni\u00e3o pelo Legislativo. Estima-se que, em 2022, cerca de 25% da verba discricion\u00e1ria estivesse sob comando direto de parlamentares. Um quarto do investimento p\u00fablico definido sem crit\u00e9rio t\u00e9cnico, sem planejamento central e sem responsabilidade executiva.<\/p>\n<p><span>Nesse cen\u00e1rio, o presidente da C\u00e2mara \u2013 seja Rodrigo Maia, seja Arthur Lira \u2013 tornou-se uma figura quase equivalente a um premi\u00ea informal, sem ser formalmente responsabilizado por pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<h3>E o STF virou Poder Moderador<\/h3>\n<p>O Supremo Tribunal Federal tamb\u00e9m se reinventou nesse ciclo. Em face de um Executivo inst\u00e1vel e um Legislativo cada vez mais aut\u00f4nomo, o STF passou a atuar como Poder Moderador informal: decidiu conflitos entre os Poderes, imp\u00f4s limites \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de emendas secretas, garantiu a autonomia federativa durante a pandemia e abriu inqu\u00e9ritos para investigar amea\u00e7as \u00e0 democracia.<\/p>\n<p><span>A liminar da ADI 7697, que questionou a impositividade absoluta das emendas parlamentares, \u00e9 emblem\u00e1tica. E o acordo costurado em 2024 entre Supremo, Congresso e Executivo \u2013 pondo fim \u00e0 execu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica das emendas de comiss\u00e3o \u2013 foi um raro momento de recomposi\u00e7\u00e3o institucional, mediado pelo Judici\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas o fortalecimento do STF tamb\u00e9m levanta dilemas. Se, por um lado, sua atua\u00e7\u00e3o protegeu o Estado de Direito diante de impulsos autorit\u00e1rios, por outro, h\u00e1 cr\u00edticas sobre excessos e interfer\u00eancias em prerrogativas dos demais Poderes. A \u201csupremocracia\u201d, no dizer de Oscar Vilhena, passou a habitar o centro do debate institucional.<\/span><\/p>\n<h3>Um sistema disfuncional, sem responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>O resultado dessa metamorfose silenciosa \u00e9 um sistema disfuncional, em que o poder \u00e9 difuso, mas a responsabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 nula. O Parlamento distribui recursos p\u00fablicos em larga escala, mas n\u00e3o responde pelas falhas da gest\u00e3o. O Executivo \u00e9 cobrado por resultados que j\u00e1 n\u00e3o controla. O STF \u00e9 elogiado e atacado por exercer pap\u00e9is que o sistema pol\u00edtico abandonou. E o eleitor, at\u00f4nito, n\u00e3o sabe mais a quem cobrar.<\/p>\n<p>A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9: o Brasil precisa de um novo pacto institucional? A resposta talvez seja sim. Mas n\u00e3o basta mudar o nome do regime. Um semipresidencialismo real \u2013 como em Portugal ou na Fran\u00e7a \u2013 exige regras claras, partidos program\u00e1ticos e clareza na rela\u00e7\u00e3o entre confian\u00e7a parlamentar e Poder Executivo.<\/p>\n<p>O que temos hoje \u00e9 um semipresidencialismo informal, opaco, disfuncional e desigual. Um modelo em que o poder de decis\u00e3o foi redistribu\u00eddo, mas a responsabilidade pol\u00edtica evaporou. Em nome da governabilidade, criamos um sistema em que todos mandam \u2013 mas ningu\u00e9m governa.<\/p>\n<h3>Para onde vamos?<\/h3>\n<p><span>\u00c9 poss\u00edvel corrigir o rumo sem ruptura institucional. Isso exige medidas como:<\/span><\/p>\n<p><span>reequilibrar o or\u00e7amento, restituindo ao Executivo a capacidade de planejamento;<\/span><br \/>\n<span>regulamentar as emendas parlamentares com crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e transpar\u00eancia;<\/span><br \/>\n<span>exigir responsabilidade pol\u00edtica de quem det\u00e9m o poder real, inclusive l\u00edderes do Congresso;<\/span><br \/>\n<span>resgatar a centralidade da coordena\u00e7\u00e3o governamental, sem abrir m\u00e3o do controle democr\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p><span>Caso contr\u00e1rio, o pa\u00eds permanecer\u00e1 sob um arranjo em que os Tr\u00eas Poderes atuam simultaneamente como governo e oposi\u00e7\u00e3o, e a sociedade como ref\u00e9m de um jogo institucional que ela n\u00e3o compreende, n\u00e3o controla e n\u00e3o sanciona.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidencialismo formal, pr\u00e1tica informal Constitucionalmente, o Brasil adota um sistema presidencialista. Mas a pr\u00e1tica institucional dos \u00faltimos anos, especialmente desde 2016, tem revelado algo diferente: a emerg\u00eancia de um arranjo h\u00edbrido, sem base normativa clara, no qual o Poder Executivo \u00e9 cada vez mais partilhado \u2013 informalmente \u2013 com o Congresso Nacional e com o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12494"}],"collection":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12494"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12494\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12494"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12494"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12494"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}