{"id":12489,"date":"2025-07-05T06:20:26","date_gmt":"2025-07-05T09:20:26","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/05\/boa-escrita-para-advogados-que-querem-ser-lidos\/"},"modified":"2025-07-05T06:20:26","modified_gmt":"2025-07-05T09:20:26","slug":"boa-escrita-para-advogados-que-querem-ser-lidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/07\/05\/boa-escrita-para-advogados-que-querem-ser-lidos\/","title":{"rendered":"Boa escrita para advogados que querem ser lidos"},"content":{"rendered":"<p><span>A palavra escrita, uma das inven\u00e7\u00f5es mais poderosas da humanidade, se entrela\u00e7a com o Direito desde as origens da civiliza\u00e7\u00e3o. Da peti\u00e7\u00e3o inicial ao recurso extraordin\u00e1rio, dos memoriais ao parecer, tudo no of\u00edcio jur\u00eddico depende da forma como organizamos nossos pensamentos antes de convert\u00ea-lo em texto \u2013 seja na tela, seja no papel, para os que ainda guardam o antigo h\u00e1bito. <\/span><\/p>\n<p><span>Sem a linguagem escrita, n\u00e3o nos reconhecer\u00edamos plenamente como seres humanos, nem ter\u00edamos constru\u00eddo grande parte do mundo em que vivemos, inclusive o mundo jur\u00eddico.<\/span><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p><span>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m, transmitir com precis\u00e3o uma ideia por meio da escrita. N\u00e3o basta um ato de vontade, uma decis\u00e3o tomada na hora de come\u00e7ar a escrever. O bi\u00f3grafo Ruy Castro j\u00e1 advertiu: ningu\u00e9m escreve bem, alguns reescrevem bem<\/span><span>. A boa escrita n\u00e3o nasce pronta. Confesso que me senti aliviado ao me deparar com a li\u00e7\u00e3o. Se at\u00e9 um imortal da Academia Brasileira de Letras precisa se dar ao trabalho de reescrever um texto diversas vezes, n\u00f3s, os mortais, n\u00e3o poder\u00edamos esperar menos esfor\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span>Um texto leg\u00edvel e fluido \u00e9 resultado de um processo: muitos <\/span><span>vai-e-v\u00e9ns<\/span><span>, sucessivas podas, acr\u00e9scimos, meias-voltas, alguns <\/span><span>insights<\/span><span>, arrependimentos e muita reescrita. Primeiro, organizam-se as ideias; depois, lapida-se a forma. Este artigo, por exemplo, n\u00e3o fugiu \u00e0 regra. Foi reescrito uma por\u00e7\u00e3o de vezes at\u00e9 chegar \u00e0 sua vers\u00e3o final.<\/span><\/p>\n<p><span>Diz-se, com raz\u00e3o, que a clareza \u00e9 uma gentileza que o escritor presta ao leitor, um gesto de empatia. Mas como se escreve com clareza? Antes de come\u00e7ar, \u00e9 preciso clareza de pensamento: saber exatamente sobre o que ser\u00e1 o texto, evitar se perder em ramifica\u00e7\u00f5es do tema, seguir passo a passo a linha do racioc\u00ednio. \u00c9 preciso saber de antem\u00e3o de onde se parte e aonde se quer chegar. Qualquer texto, inclusive o jur\u00eddico, deve ser compreens\u00edvel at\u00e9 mesmo para quem n\u00e3o domina o assunto.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas n\u00e3o se iluda: a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o far\u00e1 tudo isso por voc\u00ea. \u00c9 necess\u00e1rio saber escrever bem para, s\u00f3 ent\u00e3o, utilizar a m\u00e1quina com proveito m\u00e1ximo. Ela pode ser uma aliada poderosa, mas apenas nas m\u00e3os de quem domina a linguagem escrita e sabe desenvolver ideias complexas.<\/span><\/p>\n<p><span>Elementos de persuas\u00e3o, argumentos, ganchos ret\u00f3ricos e princ\u00edpios de estilo devem ser fornecidos previamente pelo autor, ainda que em pequenas amostras, como exemplos ou modelos que sirvam de guia. A IA multiplica o que recebe, mas ainda n\u00e3o inventa, com precis\u00e3o e eleg\u00e2ncia, aquilo que n\u00e3o foi lhe dado.<\/span><\/p>\n<p><span>Abandonemos o latim jur\u00eddico, de uma vez por todas. Por um lado, porque sua grafia, n\u00e3o raro, aparece em peti\u00e7\u00f5es com erros; por outro, porque se trata de um arca\u00edsmo incompat\u00edvel com a comunica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de prestar homenagem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o romana por meio de uma linguagem morta. J\u00e1 importamos e ainda utilizamos in\u00fameros institutos jur\u00eddicos romanos em nosso Direito. A est\u00e9tica da simplicidade venceu. Fiquemos, portanto, com a nossa l\u00edngua luso-brasileira (para usar a denomina\u00e7\u00e3o de nossa l\u00edngua dada pelo ministro e poeta Carlos Ayres Britto), t\u00e3o bela e cheia de significados.<\/span><\/p>\n<p><span>Outra sugest\u00e3o \u00e9 eliminar palavras e express\u00f5es in\u00fateis como aquelas f\u00f3rmulas de in\u00edcio de frase: \u201cvale ressaltar que\u201d, \u201c\u00e9 importante frisar\u201d \u2014 tudo isso deveria acender o alerta do revisor. Em geral, dizem pouco ou nada. Pior ainda: mostram que o autor n\u00e3o confia no que vai dizer, j\u00e1 que precisa de refor\u00e7o de si pr\u00f3prio. Se algo \u00e9 relevante, que se diga logo o que \u00e9. A supress\u00e3o desses conectores in\u00fateis torna o texto mais direto, firme e respeitoso com o tempo do leitor. Retir\u00e1-los, quando n\u00e3o fazem falta (e raramente fazem), \u00e9 abrir caminho para uma argumenta\u00e7\u00e3o limpa e eficaz.<\/span><\/p>\n<p><span>Armadilha comum, especialmente entre advogados, \u00e9 recorrer ao uso de sin\u00f4nimos para termos t\u00e9cnicos. Na literatura, isso pode funcionar. No texto jur\u00eddico (e em qualquer linguagem cient\u00edfica), por\u00e9m, a repeti\u00e7\u00e3o de termos t\u00e9cnicos \u00e9 aliada da precis\u00e3o. Peti\u00e7\u00e3o inicial n\u00e3o \u00e9 \u201cexordial\u201d, tampouco \u201cpe\u00e7a de ataque\u201d. Supremo Tribunal Federal n\u00e3o \u00e9 \u201cExcelso Pret\u00f3rio\u201d, nem \u201cSumo Aer\u00f3pago\u201d. Recurso Extraordin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 \u201capelo extremo\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span>Substituir termos t\u00e9cnicos consolidados \u00e9 arriscado porque pode gerar ambiguidade. Ainda que os sin\u00f4nimos possam trazer, num primeiro olhar, eleg\u00e2ncia e estilo, pode gerar d\u00favida no leitor a respeito de qual instituto jur\u00eddico est\u00e1 sendo tratando. Utilizar varia\u00e7\u00f5es para termos comuns \u2013 \u201cdecis\u00e3o\/pronunciamento judicial\u201d, \u201ctribunal\/corte\u201d, \u201cautor\/requerente\u201d \u2013 \u00e9 aceit\u00e1vel, desde que n\u00e3o comprometa a clareza. Mas a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: use o termo t\u00e9cnico consagrado e mantenha-se fiel a ele ao longo do texto. Clareza e precis\u00e3o t\u00e9cnica n\u00e3o s\u00e3o ornamentos: s\u00e3o instrumentos de persuas\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Tamb\u00e9m \u00e9 essencial o uso de par\u00e1grafos curtos e frases bem pontuadas com sujeito, verbo e predicado, nessa ordem. Essa orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 corriqueira nas falas do ministro Lu\u00eds Roberto Barroso e encontra eco em boas pr\u00e1ticas de reda\u00e7\u00e3o jur\u00eddica contempor\u00e2nea. Use, sempre que poss\u00edvel, a voz ativa. O pr\u00f3prio <strong><span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/strong>, por exemplo, estabelece que os artigos submetidos ao peri\u00f3dico devem conter \u201cpar\u00e1grafos curtos e bem pontuados\u201d. N\u00e3o somos Saramago. Trata-se de uma escolha de estilo, sim, mas, sobretudo, de respeito ao leitor.<\/span><\/p>\n<p><span>Substitua o uso dos ger\u00fandios pelo ponto final. \u201cTendo em conta que\u201d, \u201cconsiderando que\u201d, no meio das frases costuma tornar o par\u00e1grafo prolixo e impedir as necess\u00e1rias pausas entre as frases. Ora\u00e7\u00f5es explicativas em excesso, aquelas postas entre v\u00edrgulas, devem ser evitadas, sobretudo quando o par\u00e1grafo estiver longo. Perde-se o fio da meada. Inicie uma nova ideia com uma nova frase. Boas dicas tamb\u00e9m podem ser encontradas na famosa obra de Antonio Gidi sobre reda\u00e7\u00e3o jur\u00eddica.<\/span><\/p>\n<p><span>Em <em>The sense of style: The thinking person\u2019s guide to writing in the 21<\/em><\/span><em><span>st<\/span><\/em><span><em> century<\/em>, Steven Pinker nos ensina como escrever melhor a partir de estudos sobre o funcionamento do c\u00e9rebro humano. Ele ensina que a compreens\u00e3o deve se dar sem esfor\u00e7o desnecess\u00e1rio por parte do leitor. <\/span><span>Nesse contexto, o escritor precisa tomar cuidado com a chamada \u201cmaldi\u00e7\u00e3o do conhecimento\u201d: quando o escritor presume que os leitores possuem a mesma base de conhecimento que ele, tornando o texto inacess\u00edvel ou de dif\u00edcil acesso (desencontro entre texto e leitor). <\/span><\/p>\n<p><span>Por isso, \u00e9 fundamental ter em mente que, ao escrever, se est\u00e1 transmitindo uma ideia a algu\u00e9m que n\u00e3o a conhece. Em outra passagem, o te\u00f3rico afirma que escrever \u00e9 o mostrar o mundo ao leitor. O quanto se consegue esse intento \u00e9 a medida do sucesso de um texto.<\/span><\/p>\n<p><span>Se h\u00e1 uma m\u00e1xima que todo advogado deveria impregnar na consci\u00eancia \u00e9 que o leitor jur\u00eddico em geral \u00e9 muito ocupado. O juiz l\u00ea uma d\u00fazia de peti\u00e7\u00f5es por dia. O desembargador precisa decidir dezenas de processos por semana. O assessor de ministro enfrenta centenas de recursos por ano. O tempo \u00e9 muito escasso e a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 disputada.<\/span><\/p>\n<p><span>Por isso, n\u00e3o se deve escrever para impressionar. Deve-se escrever para ser compreendido. Isso implica escrever menos, organizar bem o texto, sinalizar os t\u00f3picos com clareza, evitar floreios e manter o foco. Bons t\u00edtulos, boas aberturas, subt\u00edtulos bem escolhidos e transi\u00e7\u00f5es suaves entre as partes fazem toda a diferen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span>A escrita jur\u00eddica n\u00e3o \u00e9 mero recept\u00e1culo do argumento, ela \u00e9 constructo do argumento. A forma como se escreve influencia a credibilidade do que se escreve. Um texto confuso desmerece uma boa tese. Um texto claro pode valorizar uma tese mediana.<\/span><\/p>\n<p><span>Trata-se, portanto, de abandonar definitivamente o mito de que \u201cjuridiqu\u00eas\u201d \u00e9 sin\u00f4nimo de rigor t\u00e9cnico. Escrever bem, com clareza, n\u00e3o \u00e9 simplificar o Direito, mas torn\u00e1-lo mais acess\u00edvel, mais racional e, por consequ\u00eancia, mais persuasivo. \u00c9 ser sofisticado.<\/span><\/p>\n<p><span>A tr\u00edade recomend\u00e1vel \u00e9 a seguinte: reescrever, simplificar e convencer. Menos jarg\u00f5es e arca\u00edsmos e mais leitura de livros n\u00e3o jur\u00eddicos, porque ningu\u00e9m nasce com habilidades inatas de reda\u00e7\u00e3o. Afinal, escrever bem \u00e9 advogar melhor.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra escrita, uma das inven\u00e7\u00f5es mais poderosas da humanidade, se entrela\u00e7a com o Direito desde as origens da civiliza\u00e7\u00e3o. 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