{"id":12216,"date":"2025-06-25T09:58:23","date_gmt":"2025-06-25T12:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/06\/25\/stf-e-a-responsabilidade-das-plataformas-um-novo-equilibrio\/"},"modified":"2025-06-25T09:58:23","modified_gmt":"2025-06-25T12:58:23","slug":"stf-e-a-responsabilidade-das-plataformas-um-novo-equilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/06\/25\/stf-e-a-responsabilidade-das-plataformas-um-novo-equilibrio\/","title":{"rendered":"STF e a responsabilidade das plataformas: um novo equil\u00edbrio"},"content":{"rendered":"<p>O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/stf\">Supremo Tribunal Federal<\/a> se aproxima do fim de um julgamento que redefine os contornos da esfera p\u00fablica digital no Brasil. A an\u00e1lise da constitucionalidade do artigo 19 do <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/marco-civil-internet\">Marco Civil da Internet<\/a> n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma disputa jur\u00eddica: trata-se de discutir o papel que as plataformas digitais exercem no debate p\u00fablico e as responsabilidades que devem assumir.<\/p>\n<p>A sinaliza\u00e7\u00e3o do tribunal \u00e9 clara: parte do regime atual j\u00e1 n\u00e3o se sustenta diante das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e do compromisso constitucional com a prote\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Quando o Marco Civil foi aprovado, dez anos atr\u00e1s, ainda parecia fazer sentido tratar todas as plataformas digitais como meros intermedi\u00e1rios\u00a0\u2014 empresas que apenas \u201ctransportavam\u201d o que usu\u00e1rios publicavam, sem qualquer controle ou interfer\u00eancia relevante sobre essa circula\u00e7\u00e3o. Hoje, essa ideia n\u00e3o se sustenta mais, em face dos filtros que decidem o que aparece, o que \u00e9 recomendado, o que viraliza e o que desaparece na sombra dos algoritmos. Isso n\u00e3o \u00e9 neutralidade. \u00c9 poder. E \u00e9 fundamental haver uma responsabilidade proporcional.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o ponto central que a maioria do Supremo j\u00e1 reconheceu: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aplicar, de forma autom\u00e1tica e acr\u00edtica, um modelo jur\u00eddico pensado para uma internet que j\u00e1 n\u00e3o existe e para atores que mudaram radicalmente de papel.<\/p>\n<p>Mas reconhecer a inadequa\u00e7\u00e3o do modelo atual n\u00e3o significa abandonar tudo o que o Marco Civil trouxe. Pelo contr\u00e1rio. H\u00e1 sabedoria em preservar parte do regime atual, especialmente para plataformas que de fato n\u00e3o t\u00eam \u2014 ou n\u00e3o deveriam ter \u2014 interfer\u00eancia significativa no conte\u00fado dos usu\u00e1rios. N\u00e3o faz sentido submeter o Registro.br, que s\u00f3 gerencia dom\u00ednios, ou a Wikipedia, que funciona por autogest\u00e3o comunit\u00e1ria, \u00e0s mesmas regras aplic\u00e1veis ao Instagram ou ao YouTube, que moldam ativamente a visibilidade do que circula.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 essencial manter uma salvaguarda central do Marco Civil: nos casos mais sens\u00edveis \u00e0 liberdade de express\u00e3o \u2014 como conte\u00fados jornal\u00edsticos ou disputas envolvendo honra e reputa\u00e7\u00e3o \u2014 deve continuar cabendo ao Judici\u00e1rio decidir sobre a legalidade do conte\u00fado.<\/p>\n<p>Para o restante dos il\u00edcitos, o caminho \u00e9 o regime de notifica\u00e7\u00e3o por usu\u00e1rios e tomada de a\u00e7\u00e3o das plataformas j\u00e1 previsto no artigo 21 do Marco Civil. A exce\u00e7\u00e3o fica por conta de uma lista restrita de condutas especialmente graves. Nesses casos, o Supremo sinaliza que ser\u00e1 necess\u00e1rio instituir um dever de cuidado voltado a esses il\u00edcitos de maior gravidade, como racismo, homofobia e explora\u00e7\u00e3o sexual infantil, por exemplo.<\/p>\n<p>Esse dever de cuidado n\u00e3o deve se confundir com uma obriga\u00e7\u00e3o de filtrar, individualmente, cada conte\u00fado postado na rede. O que se exige \u00e9 a implementa\u00e7\u00e3o de sistemas robustos de governan\u00e7a, modera\u00e7\u00e3o e resposta, condizentes com os riscos que essas plataformas oferecem.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caminho que permite evitar dois riscos opostos \u2014 e igualmente perigosos. De um lado, a omiss\u00e3o absoluta; de outro, o incentivo \u00e0 remo\u00e7\u00e3o preventiva e indiscriminada de qualquer conte\u00fado que gere d\u00favida. Nenhum desses extremos interessa a uma sociedade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Considerando a intensa curadoria que as plataformas j\u00e1 exercem sobre o conte\u00fado que circula em suas redes, \u00e9 fundamental que essa curadoria seja orientada por par\u00e2metros constitucionais. Isso significa adotar medidas eficazes para mitigar a dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados danosos e aplicar mecanismos mais robustos de modera\u00e7\u00e3o diante de materiais que representem riscos elevados aos direitos fundamentais.<\/p>\n<p>Significa compreender tamb\u00e9m que essa prote\u00e7\u00e3o passa por deveres adicionais de transpar\u00eancia \u2013 por meio de relat\u00f3rios sobre modera\u00e7\u00e3o e bibliotecas de an\u00fancios \u2013 como reconhece a maioria dos ministros.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que emerge uma pe\u00e7a institucional crucial: a necessidade de uma autoridade capaz de acompanhar, fiscalizar e orientar esse ecossistema \u2014 ao menos at\u00e9 que o <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/congresso-nacional\">Congresso Nacional<\/a> estabele\u00e7a um marco regulat\u00f3rio mais abrangente. N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel atribuir ao Judici\u00e1rio a tarefa de avaliar se uma plataforma implementou mecanismos adequados de modera\u00e7\u00e3o, se investe de forma proporcional aos riscos ou se h\u00e1 falhas estruturais que justifiquem sua responsabiliza\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n<p>Essa autoridade precisa ter uma expertise instalada, al\u00e9m de contar com uma diretoria independente, protegida por mandatos, que lhe garantam autonomia t\u00e9cnica e decis\u00f3ria. No Brasil, essa autoridade j\u00e1 existe: \u00e9 a Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/anpd\">ANPD<\/a>) e re\u00fane justamente esses atributos. Com compet\u00eancia sobre o tratamento de dados \u2014 atividade central das plataformas digitais \u2014, corpo t\u00e9cnico especializado e processos regulat\u00f3rios em curso, a ANPD re\u00fane as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para exercer esse papel.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal-lancamento\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Portanto, o que est\u00e1 em jogo neste julgamento n\u00e3o \u00e9 apenas a revis\u00e3o de um artigo da lei, mas a constru\u00e7\u00e3o de um novo equil\u00edbrio institucional para a internet brasileira. Um equil\u00edbrio que reconhece e aponta um novo papel das grandes plataformas com alta interfer\u00eancia no conte\u00fado.<\/p>\n<p>Uma tese clara, sint\u00e9tica e sens\u00edvel a estes desafios pode ser a virada de p\u00e1gina que o tema precisa sob o olhar constitucional, assim chamando o Congresso para que volte a se debru\u00e7ar sobre o tema.<\/p>\n<p>Se a nova esfera p\u00fablica digital se apoia em uma infraestrutura privada poderosa, torna-se indispens\u00e1vel construir formas de governan\u00e7a democr\u00e1tica, orientadas pelos valores da Constitui\u00e7\u00e3o. At\u00e9 aqui, a modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado tem sido guiada principalmente por crit\u00e9rios comerciais \u2014 aquilo que gera aten\u00e7\u00e3o, engajamento, viraliza\u00e7\u00e3o \u2014, o que frequentemente resulta na amplifica\u00e7\u00e3o de conte\u00fados criminosos ou nocivos, inclusive para crian\u00e7as e grupos vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>O Supremo come\u00e7a a corrigir essa assimetria: diante dos modelos de neg\u00f3cio que estruturam as plataformas digitais, proteger a liberdade de express\u00e3o exige a\u00e7\u00f5es positivas do Estado que garantam um m\u00ednimo de pluralidade, transpar\u00eancia e responsabilidade nos espa\u00e7os em que o debate p\u00fablico \u00e9 mediado. Trata-se de instituir responsabilidade proporcional ao poder que det\u00eam.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Supremo Tribunal Federal se aproxima do fim de um julgamento que redefine os contornos da esfera p\u00fablica digital no Brasil. 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