{"id":11614,"date":"2025-06-04T15:39:55","date_gmt":"2025-06-04T18:39:55","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/06\/04\/se-o-regulador-se-desregula-todos-perdem\/"},"modified":"2025-06-04T15:39:55","modified_gmt":"2025-06-04T18:39:55","slug":"se-o-regulador-se-desregula-todos-perdem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/06\/04\/se-o-regulador-se-desregula-todos-perdem\/","title":{"rendered":"Se o regulador se desregula, todos perdem"},"content":{"rendered":"<p>O mundo digital nos desafia a adaptar as ferramentas criadas para o mundo real, anal\u00f3gico. Em todos os campos estamos aprendendo a lidar com a crescente demanda de regular rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas travadas no mundo virtual. Assim \u00e9 com a telemedicina, a autentica\u00e7\u00e3o de documentos, o exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Igual ocorre com o tema do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico. O assunto ganhou destaque com a pretens\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/anatel\">Anatel<\/a> de exercer fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre os equipamentos de comunica\u00e7\u00e3o comercializados em plataformas de <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/e-commerce\">e-commerce<\/a>. A aplica\u00e7\u00e3o de multas, a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o em centros de distribui\u00e7\u00e3o e amea\u00e7as de retirada do ar de sites t\u00eam frequentado a m\u00eddia e o Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>O debate est\u00e1 um tanto desfocado. Tanto do ponto de vista do que cabe \u00e0 ag\u00eancia como das medidas que pretende adotar.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A Anatel tem suas importantes atribui\u00e7\u00f5es definidas na Lei Geral de Telecomunica\u00e7\u00f5es (<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l9472.htm\">Lei 9.472\/1997<\/a>). Desde logo se v\u00ea que a ela \u00e9 reservada a \u201c<em>fun\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o regulador das telecomunica\u00e7\u00f5es\u201d.<\/em> Quando criamos a ag\u00eancia, l\u00e1 nos anos 1990, conferimos a ela uma s\u00e9rie de compet\u00eancias necess\u00e1rias para atuar sobre as telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim ela regula as redes aplicadas \u00e0s telecomunica\u00e7\u00f5es, as rela\u00e7\u00f5es de consumo enredadas nestes servi\u00e7os, ou o emprego de equipamentos ou sistemas integrantes das redes de suporte a estas atividades. Tudo dentro de sua fun\u00e7\u00e3o definida no art. 4\u00ba da lei. Isso n\u00e3o autoriza que ela passe a exercer atribui\u00e7\u00f5es a montante ou a jusante, adentrando setores ou atividades que n\u00e3o sejam, no seu cerne, telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A ag\u00eancia regula as redes que levam banda larga nas cidades. Mas isso n\u00e3o autoriza a determinar a dist\u00e2ncia entre os postes de distribui\u00e7\u00e3o de energia que lhes d\u00e3o suporte.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que a sua compet\u00eancia para certificar (art. 19, XIII) e fiscalizar (art. 156) os equipamentos e componentes de comunica\u00e7\u00e3o se volta estritamente a impedir que uma prestadora de servi\u00e7os de telecom (sua regulada) empregue na sua rede componentes n\u00e3o certificados (art. 162, \u00a72\u00ba).<\/p>\n<p>Nada h\u00e1 na Lei Geral de Telecomunica\u00e7\u00f5es que d\u00ea compet\u00eancia para fiscalizar o com\u00e9rcio destes produtos. Se a prestadora empregar ou habilitar um equipamento sem certifica\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 ser punida e dever\u00e1 desconectar esse item. Mesmo nas normas infralegais (por exemplo o seu Regimento Interno), suas atribui\u00e7\u00f5es fiscalizat\u00f3rias e de defesa do consumidor se limitam ao setor regulado. N\u00e3o envolvem as cadeias econ\u00f4micas adjacentes.<\/p>\n<p>Mesmo desconsiderados os limites das compet\u00eancias da ag\u00eancia, as medidas cogitadas s\u00e3o descabidas.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/marco-civil-internet\">Marco Civil da Internet<\/a>, no seu art. 19, n\u00e3o confere uma imunidade absoluta \u00e0s plataformas sobre tudo aquilo que nelas \u00e9 postado. Por\u00e9m deixa claro que inexiste uma responsabilidade objetiva integral sobre o que nelas circula. O que a Anatel est\u00e1 a pretender das plataformas de e-commerce \u00e9 uma responsabilidade objetiva sobre todos os produtos que nela s\u00e3o anunciados. Pior: baseada no risco integral, que exigiria um crivo pr\u00e9vio sobre toda uma mir\u00edade de comerciantes e uma infinidade de produtos.<\/p>\n<p>O ministro Alexandre de Moraes tem defendido em doutrina e em julgados que \u201co que vale para o mundo real deve valer para o mundo virtual\u201d. A regra cai perfeitamente aqui.<\/p>\n<p>Recorramos a um exemplo do mundo real. A ECT presta servi\u00e7o p\u00fablico. Tem, portanto, responsabilidade objetiva com base no art. 37, \u00a76\u00ba, CR. E ningu\u00e9m a responsabilizaria por um usu\u00e1rio postar por Sedex um medicamento n\u00e3o registrado na Anvisa que venha a fazer mal \u00e0 sa\u00fade do destinat\u00e1rio. Igualmente a dire\u00e7\u00e3o dos Correios n\u00e3o ser\u00e1 responsabilizada criminalmente se, desavisadamente, entregar um entorpecente bem escondido dentro de uma correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>A comercializa\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica de equipamentos sem certifica\u00e7\u00e3o em uma plataforma de e-commerce n\u00e3o \u00e9 causa para a aplica\u00e7\u00e3o de pesadas san\u00e7\u00f5es, quanto mais para a suspens\u00e3o completa do site. San\u00e7\u00f5es mais gravosas poderiam ser admitidas, por exemplo, com rela\u00e7\u00e3o a plataformas que d\u00e3o acesso a conte\u00fado autoral sem autoriza\u00e7\u00e3o, que se prestam abertamente para a pr\u00e1tica de crimes, que comercializam dados pessoais confidenciais ou ainda sites de apostas esportivas n\u00e3o autorizados.<\/p>\n<p>N\u00e3o parece ser isso o que ocorre com os <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/marketplace\">marketplaces<\/a>. Os dados dispon\u00edveis, inclusive fruto da fiscaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Anatel, evidenciam que tais ocorr\u00eancias, quando verificadas, s\u00e3o pontuais e irrelevantes ante o volume de bens comercializados pelas plataformas.<\/p>\n<p>Se as a\u00e7\u00f5es j\u00e1 praticadas pela ag\u00eancia n\u00e3o t\u00eam suporte legal, a amea\u00e7a de derrubar sites \u00e9 temer\u00e1ria e desproporcional.<\/p>\n<p>Voltemos ao paralelo com o mundo real. Se um shopping center tem entre suas lojas um com\u00e9rcio que vende um produto sem origem comprovada, n\u00e3o se cogita que a autoridade competente feche o shopping.<\/p>\n<p>A menos que comprove que aquele centro se organiza em torno especificamente do com\u00e9rcio il\u00edcito, a conduta desej\u00e1vel \u00e9 a notifica\u00e7\u00e3o, com identifica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dos produtos reputados irregulares, informando que aquela loja incorre no il\u00edcito. Multar a empresa a priori por comportamento de terceiro pressuporia uma responsabilidade objetiva ampl\u00edssima, a que nem o prestador de servi\u00e7o p\u00fablico se submete<\/p>\n<p>Mais do que desproporcional, a amea\u00e7a de derrubada de marketplaces \u00e9 temer\u00e1ria. Em algumas oportunidades esta medida dr\u00e1stica sobre plataformas digitais foi necess\u00e1ria para impedir a pr\u00e1tica reiterada de il\u00edcitos reconhecidos pela autoridade judicial e de modo a reafirmar a autoridade da jurisdi\u00e7\u00e3o. Como nos casos de insist\u00eancia em permitir a circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o em redes sociais. Vulgarizar tal medida, apenas para emular compet\u00eancias inexistentes, ser\u00e1 um desservi\u00e7o para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O combate ao crime exige intelig\u00eancia e coopera\u00e7\u00e3o. Nestes quase 30 anos, a Anatel se firmou pelo compromisso com a boa regula\u00e7\u00e3o, ponderada, racional e motivada. As provid\u00eancias brandidas no Despacho Decis\u00f3rio 5.657\/2024 n\u00e3o correspondem a essa trajet\u00f3ria. O mundo digital n\u00e3o pode ser terra de ningu\u00e9m. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser lugar onde o xerife faz a lei.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo digital nos desafia a adaptar as ferramentas criadas para o mundo real, anal\u00f3gico. Em todos os campos estamos aprendendo a lidar com a crescente demanda de regular rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas travadas no mundo virtual. Assim \u00e9 com a telemedicina, a autentica\u00e7\u00e3o de documentos, o exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o. 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