{"id":11375,"date":"2025-05-29T06:04:04","date_gmt":"2025-05-29T09:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/05\/29\/fim-da-reeleicao-o-retorno-do-debate\/"},"modified":"2025-05-29T06:04:04","modified_gmt":"2025-05-29T09:04:04","slug":"fim-da-reeleicao-o-retorno-do-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/05\/29\/fim-da-reeleicao-o-retorno-do-debate\/","title":{"rendered":"Fim da reelei\u00e7\u00e3o: o retorno do debate"},"content":{"rendered":"<p><span>A<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/legislativo\/ccj-do-senado-aprova-fim-da-reeleicao-para-chefes-do-executivo-e-mandatos-de-5-anos\"> recente aprova\u00e7\u00e3o<\/a> na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a (<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/tudo-sobre\/ccj-do-senado\">CCJ<\/a>) do Senado de uma proposta que visa extinguir a reelei\u00e7\u00e3o para cargos do Executivo reacende um debate estruturante no Brasil contempor\u00e2neo: o equil\u00edbrio entre responsabiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, estabilidade institucional e renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <\/span><\/p>\n<p><span>A discuss\u00e3o, embora antiga, permanece atual, sobretudo diante das tens\u00f5es recorrentes entre performance governamental e regras do jogo democr\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-jota-principal\">Informa\u00e7\u00f5es direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a <span class=\"jota\">JOTA<\/span> Principal, a nova newsletter do <span class=\"jota\">JOTA<\/span><\/a><\/h3>\n<h3>Reelei\u00e7\u00e3o e democracia: entre autonomia eleitoral e <em>accountability<\/em><\/h3>\n<p><span>Os argumentos a favor da extin\u00e7\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o s\u00e3o conhecidos: evitar a concentra\u00e7\u00e3o de poder, reduzir pr\u00e1ticas clientelistas, prevenir governan\u00e7a populista e estimular a altern\u00e2ncia no poder. Contudo, \u00e0 luz da teoria democr\u00e1tica e da literatura em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, tais premissas merecem pondera\u00e7\u00e3o mais rigorosa. <\/span><\/p>\n<p><span>A possibilidade de reelei\u00e7\u00e3o, quando ancorada em limites institucionais claros e mecanismos de controle eficazes, cumpre uma fun\u00e7\u00e3o essencial nas democracias liberais: fortalecer a <em>accountability<\/em> vertical.<\/span><\/p>\n<p><span>A reelei\u00e7\u00e3o oferece ao cidad\u00e3o a oportunidade de julgar retrospectivamente o desempenho do governante. \u00c9 o mecanismo que materializa o princ\u00edpio de que o poder emana do povo, permitindo que o eleitor decida se um projeto de governo deve ser interrompido ou renovado. <\/span><\/p>\n<p><span>Przeworski e O\u2019Donnell destacam que a <em>accountability<\/em> requer dois componentes: informa\u00e7\u00e3o e san\u00e7\u00e3o. A reelei\u00e7\u00e3o \u00e9 o canal que viabiliza a segunda parte dessa equa\u00e7\u00e3o \u2013 a possibilidade de punir ou premiar com base na performance.<\/span><\/p>\n<p><span>Retirar esse mecanismo pode, paradoxalmente, produzir distor\u00e7\u00f5es. Governantes sem perspectiva de continuidade no cargo tendem a operar com horizontes temporais curtos, priorizando a\u00e7\u00f5es de impacto imediato, com baixa preocupa\u00e7\u00e3o com legados duradouros. <\/span><\/p>\n<p><span>Como observa Arato, em contextos democr\u00e1ticos fr\u00e1geis, a aus\u00eancia de san\u00e7\u00f5es futuras reduz os incentivos \u00e0 boa governan\u00e7a e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes. Ao contr\u00e1rio do argumento dominante, a reelei\u00e7\u00e3o pode funcionar como um freio contra o oportunismo pol\u00edtico, ao condicionar a continuidade de poder \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o popular.<\/span><\/p>\n<p><span>Al\u00e9m disso, o receio de \u201cgovernan\u00e7a eleitoreira\u201d ignora um princ\u00edpio b\u00e1sico da democracia representativa: a responsividade. Em regimes democr\u00e1ticos, espera-se que os governantes ajam com sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas da sociedade. <\/span><\/p>\n<p><span>A busca pela reelei\u00e7\u00e3o, em si, n\u00e3o \u00e9 disfuncional \u2014 disfuncionais s\u00e3o os desvios \u00e9ticos ou o uso indevido da m\u00e1quina p\u00fablica. O que est\u00e1 em jogo, portanto, n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia da reelei\u00e7\u00e3o, mas sim a qualidade das institui\u00e7\u00f5es de controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h3>Perspectivas acad\u00eamicas sobre o debate no Brasil contempor\u00e2neo<\/h3>\n<p><span>A literatura emp\u00edrica no Brasil confirma que os eleitores n\u00e3o s\u00e3o irracionais ou indiferentes. Pesquisas como as de Renn\u00f3 e Hoepers demonstram que os cidad\u00e3os s\u00e3o capazes de avaliar pol\u00edticas p\u00fablicas e utilizam o voto para expressar tais julgamentos. A reelei\u00e7\u00e3o, nesse contexto, torna-se um instrumento eficaz de aferi\u00e7\u00e3o da legitimidade e da efic\u00e1cia governamental.<\/span><\/p>\n<p><span>Argumenta-se ainda que a reelei\u00e7\u00e3o inibe a renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Entretanto, a altern\u00e2ncia pelo simples fato de mudar n\u00e3o \u00e9, por si, um valor democr\u00e1tico absoluto. A renova\u00e7\u00e3o que fortalece a democracia \u00e9 aquela fundamentada na escolha livre e informada dos cidad\u00e3os, e n\u00e3o em proibi\u00e7\u00f5es impostas pelo sistema pol\u00edtico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Impedir a reelei\u00e7\u00e3o \u00e9 limitar a soberania do eleitor, que fica impedido de confirmar no poder um governante que considera competente. Como mostram Cinquini, Castro e Nunes, o eleitorado brasileiro, apesar dos desafios de desinforma\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 capaz de exercer prefer\u00eancias informadas e coerentes.<\/span><\/p>\n<p><span>Mesmo no campo legislativo, estudos como os de Pieri mostram que a experi\u00eancia pol\u00edtica acumulada e a continuidade de mandatos podem contribuir para a melhoria da a\u00e7\u00e3o parlamentar, algo que tamb\u00e9m se aplica ao Executivo. Cortar essa possibilidade em nome de uma rotatividade obrigat\u00f3ria pode gerar descontinuidade administrativa e enfraquecer a capacidade estatal.<\/span><\/p>\n<p><span>Em s\u00edntese, o princ\u00edpio do julgamento retrospectivo \u2014 central \u00e0 teoria democr\u00e1tica \u2014 pressup\u00f5e que a performance do incumbente seja avaliada com base em crit\u00e9rios objetivos, e que o eleitor tenha o poder de decidir sua continuidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A reelei\u00e7\u00e3o limitada a um segundo mandato, como existe hoje no Brasil, oferece esse equil\u00edbrio. Sua extin\u00e7\u00e3o, sob o pretexto de combater abusos, pode enfraquecer justamente o mecanismo que mais aproxima o cidad\u00e3o do processo decis\u00f3rio e da responsabiliza\u00e7\u00e3o dos governantes.<\/span><\/p>\n<h3>Uma solu\u00e7\u00e3o mais adequada: a qualifica\u00e7\u00e3o do processo democr\u00e1tico<\/h3>\n<p><span>Problemas reais como abuso de poder pol\u00edtico, clientelismo e personalismo n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos por meio da proibi\u00e7\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o, mas por meio de regras mais r\u00edgidas de transpar\u00eancia, fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es de controle e est\u00edmulo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Subtrair do eleitor o direito de decidir pela continuidade de um projeto bem avaliado \u00e9 comprometer a vitalidade da democracia representativa, deslocando o centro da decis\u00e3o das m\u00e3os da sociedade para o aparato institucional.<\/span><\/p>\n<p><span>Portanto, o debate mais promissor n\u00e3o \u00e9 o que busca eliminar a reelei\u00e7\u00e3o, mas aquele que investe na qualifica\u00e7\u00e3o do processo democr\u00e1tico: mais controle, mais informa\u00e7\u00e3o e mais participa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A reelei\u00e7\u00e3o, longe de ser uma amea\u00e7a, pode ser uma ferramenta de aperfei\u00e7oamento da democracia, desde que operada em um ambiente institucional saud\u00e1vel e sob vigil\u00e2ncia ativa da sociedade civil. Ademais, nenhuma democracia de relevo veda a recondu\u00e7\u00e3o do incumbente, pelo contr\u00e1rio, algumas permitem at\u00e9 mais de uma recondu\u00e7\u00e3o, mais uma evid\u00eancia em favor da autonomia do eleitor.<\/span><\/p>\n<p>ARATO, Andrew. Civil Society, Constitution, and Legitimacy. Rowman &amp; Littlefield, 2002.<\/p>\n<p>CASTRO, Gustavo da Silva; NUNES, Felipe. O voto retrospectivo no Brasil: avalia\u00e7\u00e3o de governo e escolhas eleitorais. Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais, v. 29, n. 86, 2014.<\/p>\n<p>CINQUINI, Rodrigo. Voto e desempenho: uma an\u00e1lise da reelei\u00e7\u00e3o nas democracias presidenciais. Tese (Doutorado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica) \u2013 UFRGS, 2017.<\/p>\n<p>O\u2019DONNELL, Guillermo. Accountability horizontal e novas poliarquias. Revista Lua Nova, n. 44, 1998.<\/p>\n<p>PIERI, Thiago Nogueira. A profissionaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e os efeitos da experi\u00eancia parlamentar no legislativo brasileiro. Revista de Sociologia e Pol\u00edtica, v. 19, n. 40, 2011.<\/p>\n<p>PRZEWORSKI, Adam. Democracy and the Market: Political and Economic Reforms in Eastern Europe and Latin America. Cambridge University Press, 1991.<\/p>\n<p>RENN\u00d3, Lucio; HOEPERS, Bruno. Assistencialismo ou desempenho? Determinantes da reelei\u00e7\u00e3o presidencial no Brasil. Dados \u2013 Revista de Ci\u00eancias Sociais, v. 53, n. 1, p. 41\u201372, 2010.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente aprova\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a (CCJ) do Senado de uma proposta que visa extinguir a reelei\u00e7\u00e3o para cargos do Executivo reacende um debate estruturante no Brasil contempor\u00e2neo: o equil\u00edbrio entre responsabiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, estabilidade institucional e renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. 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