{"id":11063,"date":"2025-05-17T09:00:51","date_gmt":"2025-05-17T12:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/05\/17\/reflexoes-sobre-a-proibicao-da-plataforma-resolve-juizado\/"},"modified":"2025-05-17T09:00:51","modified_gmt":"2025-05-17T12:00:51","slug":"reflexoes-sobre-a-proibicao-da-plataforma-resolve-juizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/05\/17\/reflexoes-sobre-a-proibicao-da-plataforma-resolve-juizado\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a proibi\u00e7\u00e3o da plataforma Resolve Juizado"},"content":{"rendered":"<p>O recente caso envolvendo a plataforma Resolve Juizado evidencia o embate entre inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e modelos tradicionais de advocacia. Esta discuss\u00e3o transcende quest\u00f5es \u00e9ticas pontuais e revela dilemas fundamentais sobre o acesso \u00e0 justi\u00e7a na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Os Juizados Especiais, criados para simplificar o acesso \u00e0 justi\u00e7a, enfrentam hoje um paradoxo operacional. Tornaram-se terreno f\u00e9rtil para demandas repetitivas que seguem um padr\u00e3o quase industrial: peti\u00e7\u00f5es iniciais padronizadas, contesta\u00e7\u00f5es replicadas e decis\u00f5es judiciais padronizadas que aplicam uma esp\u00e9cie de \u201ctabela\u201d para indeniza\u00e7\u00f5es. Este ciclo de \u201cCTRL+C \/ CTRL+V\u201d cria uma \u201cJusti\u00e7a Formul\u00e1rio\u201d \u2013 ineficiente e extremamente custosa aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/produtos\/poder?utm_source=cta-site&amp;utm_medium=site&amp;utm_campaign=campanha_poder_q2&amp;utm_id=cta_texto_poder_q2_2023&amp;utm_term=cta_texto_poder&amp;utm_term=cta_texto_poder_meio_materias\"><span>Conhe\u00e7a o <span class=\"jota\">JOTA<\/span> PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transpar\u00eancia e previsibilidade para empresas<\/span><\/a><\/h3>\n<p>A decis\u00e3o do Tribunal Regional Federal da 2\u00aa Regi\u00e3o no Agravo de Instrumento 5005734-72.2025.4.02.0000 trouxe novos contornos a esta discuss\u00e3o. Ao suspender os efeitos da decis\u00e3o de primeira inst\u00e2ncia que havia proibido o funcionamento da plataforma Resolve Juizado, o desembargador relator reconheceu que a ferramenta n\u00e3o configura capta\u00e7\u00e3o de clientela nem mercantiliza\u00e7\u00e3o da advocacia.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, destacou que a plataforma apenas oferece apoio \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de peti\u00e7\u00f5es iniciais em causas que dispensam a obrigatoriedade de advogado, favorecendo assim o acesso \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta abordagem alinha-se perfeitamente com o esp\u00edrito da Lei 9.099\/95, cujo artigo 9\u00ba estabelece que causas de at\u00e9 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos dispensam a representa\u00e7\u00e3o por advogado \u2013 um claro reconhecimento do legislador de que existem situa\u00e7\u00f5es em que o cidad\u00e3o comum pode buscar seus direitos diretamente. Nos Juizados Federais, este limite \u00e9 ainda maior: 60 sal\u00e1rios-m\u00ednimos.<\/p>\n<p>Foi justamente neste espa\u00e7o legalmente reconhecido que surgiu o Resolve Juizado, utilizando intelig\u00eancia artificial para gerar peti\u00e7\u00f5es iniciais padronizadas, de modo similar ao trabalho realizado h\u00e1 d\u00e9cadas pelos conciliadores no setor de triagem dos Juizados Especiais. A pr\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 particularmente vis\u00edvel nos Juizados administrados em conv\u00eanio com Faculdades de Direito, onde estudantes elaboram peti\u00e7\u00f5es iniciais como parte de seu est\u00e1gio.<\/p>\n<p>Classificar tal iniciativa como exerc\u00edcio ilegal da advocacia constitui um equ\u00edvoco conceitual. Se o pr\u00f3prio sistema jur\u00eddico permite que o cidad\u00e3o elabore e apresente sua peti\u00e7\u00e3o, uma ferramenta de aux\u00edlio nessa tarefa n\u00e3o pode ser considerada ilegal. Como bem observou o professor Richard Susskind em seu livro <em>Tomorrow\u2019s Lawyers: An Introduction to Your Future<\/em>, frequentemente surge o dilema entre protecionismo e progresso. A quest\u00e3o fundamental permanece: trata-se realmente de proteger a sociedade ou apenas de preservar um modelo que n\u00e3o atende plenamente \u00e0s necessidades coletivas?<\/p>\n<p>\u00c9 crucial reconhecer: existem fun\u00e7\u00f5es insubstitu\u00edveis do advogado \u2013 a an\u00e1lise estrat\u00e9gica, a media\u00e7\u00e3o de conflitos complexos, a elabora\u00e7\u00e3o de contratos sofisticados, a interpreta\u00e7\u00e3o contextualizada da lei e a aplica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia ao caso concreto. No entanto, certas tarefas jur\u00eddicas rotineiras e padronizadas podem ser automatizadas sem preju\u00edzo \u00e0 qualidade, ampliando o acesso \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria advocacia pode se beneficiar de plataformas como o Resolve Juizado, utilizando-as como ferramentas auxiliares na elabora\u00e7\u00e3o de minutas iniciais \u2013 semelhantes \u00e0s primeiras vers\u00f5es produzidas por estagi\u00e1rios \u2013 que posteriormente podem ser revisadas e complementadas pelo profissional.<\/p>\n<p>Foi exatamente isso que reconheceu o TRF2 em sua decis\u00e3o liminar: a tecnologia, neste contexto, n\u00e3o representa uma viola\u00e7\u00e3o \u00e9tica, mas uma oportunidade para que a popula\u00e7\u00e3o menos instru\u00edda ou com recursos limitados consiga acessar o Judici\u00e1rio com maior autonomia e dignidade.<\/p>\n<p>Em vez de simplesmente proibir, uma regula\u00e7\u00e3o inteligente e responsiva poderia estabelecer par\u00e2metros claros: exigir que plataformas como o Resolve Juizado incluam avisos sobre riscos, responsabilizem-se por erros graves e implementem filtros contra a\u00e7\u00f5es temer\u00e1rias, especialmente aquelas formuladas contra s\u00famulas, teses ou jurisprud\u00eancia dominante.<\/p>\n<p>A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil de S\u00e3o Paulo tem adotado uma postura mais propositiva quanto \u00e0 tecnologia. Durante a gest\u00e3o de Patricia Vanzolini, a OAB-SP criou o <a href=\"https:\/\/marketplace.oabsp.org.br\/\">Marketplace de Lawtechs<\/a>, um portal dedicado a apresentar ferramentas e plataformas tecnol\u00f3gicas \u00fateis \u00e0 advocacia, al\u00e9m de identificar atividades que poderiam ser automatizadas sem infringir as prerrogativas exclusivas da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio atual revela um Judici\u00e1rio ainda vinculado a paradigmas do s\u00e9culo 20 tentando enfrentar desafios do s\u00e9culo 21. A assimetria \u00e9 evidente: enquanto pessoas com recursos contratam os melhores escrit\u00f3rios, milh\u00f5es de brasileiros permanecem com seus pequenos lit\u00edgios sem solu\u00e7\u00e3o devido \u00e0 falta de acesso.<\/p>\n<p>A reabilita\u00e7\u00e3o judicial da plataforma Resolve Juizado demonstra a possibilidade de harmonizar inova\u00e7\u00e3o e responsabilidade jur\u00eddica. O papel do Judici\u00e1rio, da OAB e dos juristas n\u00e3o deve ser obstruir inova\u00e7\u00f5es por in\u00e9rcia institucional, mas orientar a transforma\u00e7\u00e3o de maneira prudente e construtiva.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio envolvendo o Resolve Juizado representa apenas um cap\u00edtulo de uma narrativa mais ampla sobre a integra\u00e7\u00e3o entre inova\u00e7\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o no Direito. Os advogados n\u00e3o ser\u00e3o substitu\u00eddos pela tecnologia \u2013 apenas precisar\u00e3o redefinir seu papel neste novo contexto. Isso n\u00e3o constitui uma amea\u00e7a, mas uma oportunidade de construir um sistema jur\u00eddico mais democr\u00e1tico e acess\u00edvel. Tanto a OAB quanto o Poder Judici\u00e1rio devem ser parceiros nesta miss\u00e3o transformadora.<\/p>\n<p>O futuro da advocacia n\u00e3o est\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o de muros contra a tecnologia, mas em estabelecer pontes que a utilizem em benef\u00edcio de toda a sociedade.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente caso envolvendo a plataforma Resolve Juizado evidencia o embate entre inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e modelos tradicionais de advocacia. Esta discuss\u00e3o transcende quest\u00f5es \u00e9ticas pontuais e revela dilemas fundamentais sobre o acesso \u00e0 justi\u00e7a na sociedade brasileira. Os Juizados Especiais, criados para simplificar o acesso \u00e0 justi\u00e7a, enfrentam hoje um paradoxo operacional. 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