{"id":10411,"date":"2025-04-23T11:20:09","date_gmt":"2025-04-23T14:20:09","guid":{"rendered":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/04\/23\/a-centralizacao-decisoria-nos-partidos-politicos\/"},"modified":"2025-04-23T11:20:09","modified_gmt":"2025-04-23T14:20:09","slug":"a-centralizacao-decisoria-nos-partidos-politicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprimora.site\/carvalhoalmeidaadvogados\/2025\/04\/23\/a-centralizacao-decisoria-nos-partidos-politicos\/","title":{"rendered":"A centraliza\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria nos partidos pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p>Hans Kelsen<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn1\">[1]<\/a> pontuou no in\u00edcio do s\u00e9culo passado que \u201c<em>somente a ilus\u00e3o ou a hipocrisia podem fazer algu\u00e9m acreditar que a democracia \u00e9 poss\u00edvel sem partidos pol\u00edticos<\/em>\u201d. A impactante frase do conhecido jurista austr\u00edaco revela que a democracia, por sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, requer a exist\u00eancia de canais institucionais que organizem e articulem a representa\u00e7\u00e3o da diversidade de interesses presentes na sociedade. Os partidos pol\u00edticos cumprem essa fun\u00e7\u00e3o ao estruturar o debate p\u00fablico e conectar os cidad\u00e3os \u00e0s institui\u00e7\u00f5es estatais.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a de que a democracia pode prosperar sem partidos pol\u00edticos \u00e9, portanto, uma ilus\u00e3o, pois ignora o papel fundamental dessas organiza\u00e7\u00f5es na intermedia\u00e7\u00e3o entre a vontade popular e a tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas. Sem partidos, a pol\u00edtica tenderia ao caos, \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o de interesses individuais e \u00e0 preval\u00eancia de lideran\u00e7as personalistas, comprometendo a estabilidade democr\u00e1tica e a pluralidade de ideias.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/conteudo.jota.info\/marketing-lp-newsletter-ultimas-noticias?utm_source=jota&amp;utm_medium=lp&amp;utm_campaign=23-09-2024-jota-lp-eleicoes-2024-eleicoes-2024-none-audiencias-none&amp;utm_content=eleicoes-2024&amp;utm_term=none\"><span>Assine gratuitamente a newsletter \u00daltimas Not\u00edcias do <span class=\"jota\">JOTA<\/span> e receba as principais not\u00edcias jur\u00eddicas e pol\u00edticas do dia no seu email<\/span><\/a><\/h3>\n<p>Este artigo examina os mecanismos institucionais que podem democratizar os processos decis\u00f3rios internos dos partidos pol\u00edticos, superando a atual l\u00f3gica de centraliza\u00e7\u00e3o de poder nas c\u00fapulas. A proposta \u00e9 fomentar modelos mais participativos, que fortale\u00e7am a representatividade e a <em>accountability<\/em>, sem comprometer a funcionalidade pol\u00edtica e eleitoral das legendas.<\/p>\n<h3>Autonomia versus democracia interna: o dilema<\/h3>\n<p>No Brasil, a confian\u00e7a dos eleitores brasileiros nos partidos pol\u00edticos atingiu, em 2023, o maior patamar em 15 anos, consoante o \u00cdndice de Confian\u00e7a Social (ICS), s\u00e9rie anual de pesquisas presenciais feitas desde 2009 pelo Ibope. As entidades ligadas \u00e0 pol\u00edtica, por\u00e9m, em compara\u00e7\u00e3o a outras 20 institui\u00e7\u00f5es, est\u00e3o na \u00faltima posi\u00e7\u00e3o.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn3\">[3]<\/a> Noutra pesquisa mais recente realizada pelo Datafolha, divulgada no dia 27 de mar\u00e7o de 2024, constata-se que 93% dos brasileiros confiam pouco ou n\u00e3o confiam nos partidos pol\u00edticos.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 assegura, no artigo 17, a autonomia dos partidos pol\u00edticos, mas n\u00e3o imp\u00f5e par\u00e2metros objetivos para garantir uma estrutura interna democr\u00e1tica. Essa lacuna normativa \u00e9 ampliada pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l9096.htm\">Lei 9.096\/1995<\/a>, que igualmente omite crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o, rotatividade de dirigentes e fiscaliza\u00e7\u00e3o interna. O resultado \u00e9 um sistema permissivo \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as, \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o de candidaturas e ao uso estrat\u00e9gico e verticalizado dos recursos financeiros p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Apesar das exig\u00eancias legais m\u00ednimas quanto \u00e0 destina\u00e7\u00e3o de recursos por g\u00eanero e ra\u00e7a, a distribui\u00e7\u00e3o interna ainda \u00e9 altamente discricion\u00e1ria. As conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, teoricamente espa\u00e7os deliberativos, acabam frequentemente reduzidas a formaliza\u00e7\u00f5es de decis\u00f5es j\u00e1 tomadas pelas c\u00fapulas. A aus\u00eancia de mecanismos robustos de controle, auditoria e presta\u00e7\u00e3o de contas em tempo real perpetua a concentra\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria e afasta os filiados do processo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Quando o tema \u00e9 democratizar os partidos pol\u00edticos, as formas mais comuns de iniciativas geralmente incluem elei\u00e7\u00f5es diretas para lideran\u00e7as, pr\u00e9vias eleitorais, conven\u00e7\u00f5es com delegados eleitos ou indicados e consultas diretas \u00e0 milit\u00e2ncia por meio de enquetes, plebiscitos e plataformas digitais.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn5\">[5]<\/a> Esses mecanismos tendem a fortalecer a legitimidade das decis\u00f5es, renovam lideran\u00e7as, reduzem o personalismo e aproximam o partido das demandas sociais, especialmente em contextos de crise de representatividade.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Embora desej\u00e1vel para fomentar a cultura democr\u00e1tica e a integridade institucional, a democracia intrapartid\u00e1ria pode tamb\u00e9m gerar desafios como fragmenta\u00e7\u00e3o interna, judicializa\u00e7\u00e3o de disputas, influ\u00eancia excessiva de grupos organizados e instabilidade estrat\u00e9gica.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn7\">[7]<\/a> Tamb\u00e9m h\u00e1 o risco de que pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas se tornem meramente simb\u00f3licas \u2014 como pr\u00e9vias pouco transparentes ou com participa\u00e7\u00e3o limitada \u2014 servindo apenas para legitimar decis\u00f5es j\u00e1 tomadas pelas c\u00fapulas.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Para ilustrar a import\u00e2ncia do tema, nas elei\u00e7\u00f5es de 2024, no que diz respeito ao financiamento p\u00fablico, vinte e nove partidos receberam aproximadamente R$ 4,9 bilh\u00f5es para gastos com a corrida eleitoral. Para receber os recursos, cada partido precisou definir crit\u00e9rios de distribui\u00e7\u00e3o \u00e0s candidatas e aos candidatos, de acordo com a lei.<a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftn9\">[9]<\/a> Todavia, a centraliza\u00e7\u00e3o dos processos decis\u00f3rios ainda permite que as c\u00fapulas partid\u00e1rias administrem de forma discricion\u00e1ria o Fundo Partid\u00e1rio e o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).<\/p>\n<p>Com efeito, os estatutos partid\u00e1rios, embora essenciais para a organiza\u00e7\u00e3o interna dos partidos, s\u00e3o insuficientes para garantir uma administra\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dos recursos p\u00fablicos recebidos. O que se verifica hoje \u00e9 que muitas vezes, os estatutos partid\u00e1rios n\u00e3o estabelecem crit\u00e9rios rigorosos para a aplica\u00e7\u00e3o dos recursos, limitando-se a diretrizes gerais que n\u00e3o detalham mecanismos de controle, auditoria e san\u00e7\u00f5es em caso de descumprimento.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>A democracia representativa n\u00e3o pode prescindir dos partidos pol\u00edticos \u2014 mas tampouco pode sobreviver se eles forem meras ag\u00eancias olig\u00e1rquicas, fechadas em si mesmas e desconectadas de suas bases sociais. A centraliza\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria, somada ao controle patrimonialista dos recursos e \u00e0 opacidade dos processos internos, mina a credibilidade das institui\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e corr\u00f3i os fundamentos da democracia constitucional, alimentando o descr\u00e9dito p\u00fablico.<\/p>\n<p>Embora a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira imponha o princ\u00edpio da democracia interna, o controle da distribui\u00e7\u00e3o de recursos nos partidos ainda \u00e9 capturado por n\u00facleos olig\u00e1rquicos, sobretudo em contextos de aus\u00eancia de transpar\u00eancia, concentra\u00e7\u00e3o de poder e fr\u00e1gil participa\u00e7\u00e3o da base partid\u00e1ria. Noutras palavras, n\u00e3o basta haver repasses p\u00fablicos \u2014 \u00e9 preciso vincular sua distribui\u00e7\u00e3o a crit\u00e9rios democr\u00e1ticos, representativos e audit\u00e1veis, com mecanismos de controle acess\u00edveis \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Fortalecer a democracia intrapartid\u00e1ria exige, por\u00e9m, reformas normativas, fiscaliza\u00e7\u00e3o institucional e engajamento c\u00edvico. Trata-se, em \u00faltima an\u00e1lise, de democratizar os sujeitos que fazem a democracia \u2014 para que os partidos deixem de ser obst\u00e1culos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e se tornem, efetivamente, instrumentos de representa\u00e7\u00e3o plural, inclusiva, transparente e comprometida com o interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref1\">[1]<\/a> KELSEN, H. (1993). <em>A democracia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, p. 40.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref2\">[2]<\/a> SARTORI, G. (1991). Democracia. <em>Revista de Ci\u00eancia Pol\u00edtica<\/em>, <em>13<\/em>(1-2), p. 130.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Dispon\u00edvel em: https:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/pulso\/post\/2023\/07\/pesquisa-ipec-confianca-em-partidos-politicos-e-no-congresso-atinge-maior-patamar-desde-2009.ghtml; Acesso em 19 de janeiro de 2025.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2024\/03\/27\/datafolha-cresce-desconfianca-dos-brasileiros-no-congresso-nacional.ghtml; Acesso em 19 de janeiro de 2025.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref5\">[5]<\/a> TEORELL, J. (1999). A deliberative defence of intra-party democracy. <em>Party politics<\/em>, <em>5<\/em>(3), pp. 365-366.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref6\">[6]<\/a> GUTMANN, Amy and Dennis Thompson (1996) <em>Democracy and Disagreement: Why Moral Conflict cannot be Avoided in Politics, and What should be Done about it. <\/em>\u00a0Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press, pp. 142-144.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref7\">[7]<\/a> WRIGHT, William E. (1971) \u2018Comparative Party Models: Rational-Efficient and Party Democracy\u2019, in Wright (ed), pp. 17\u201354.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref8\">[8]<\/a> HABERMAS, J\u00fcrgen (1996) Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy. Cambridge: Polity, pp. 336-362.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/#_ftnref9\">[9]<\/a> Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.tse.jus.br\/comunicacao\/noticias\/2024\/Junho\/saiba-quanto-cada-partido-vai-receber-do-total-do-fundo-especial-de-campanha; Acesso em 19 de janeiro de 2025.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hans Kelsen[1] pontuou no in\u00edcio do s\u00e9culo passado que \u201csomente a ilus\u00e3o ou a hipocrisia podem fazer algu\u00e9m acreditar que a democracia \u00e9 poss\u00edvel sem partidos pol\u00edticos\u201d. 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